Reuniram-se na Coreia do Sul os dois maiores planejadores centrais do planeta, um republicano que descobriu o amor pelo protecionismo e um secretário-geral comunista que descobriu o amor pelo dólar, e o mundo financeiro fingiu que aquilo era diplomacia. Não era. Era o ritual habitual em que dois governos negociam entre si o direito de continuar interferindo nos contratos privados de bilhões de pessoas que jamais foram chamadas para opinar. Tarifa de soja, cota de terras-raras, exportação de chips, taxa sobre fentanil, suspensão de retaliação, prorrogação de tréguas, tudo decidido entre paredes douradas por homens que produzem absolutamente nada e, ainda assim, se arrogam o poder de redesenhar cadeias produtivas erguidas por gerações de trabalho real.
Anunciaram que Pequim voltará a comprar soja americana, e o mercado aplaudiu como se o produtor de Mato Grosso devesse comemorar. Quer dizer, o governo dos Estados Unidos primeiro destrói a relação comercial com tarifas absurdas, depois reconstrói parcialmente o estrago e cobra do mundo aplausos pelo conserto da própria sabotagem. É a velha lógica do incendiário que se candidata a bombeiro. Enquanto isso, o agricultor brasileiro que ganhou mercado durante a briga vai perder espaço, o consumidor chinês vai pagar mais caro pelo grão, e o contribuinte americano vai bancar os subsídios que mantiveram o produtor de Iowa vivo durante o teatro tarifário. Três grupos perdendo, um grupo ganhando, e adivinhe qual deles tem assento à mesa.
O capítulo das terras-raras é ainda mais revelador. A China suspendeu por um ano as restrições de exportação, e Washington reduziu pela metade as tarifas vinculadas ao fentanil, como se o tráfico de opioides fosse moeda de troca legítima em negociação de minerais. Olha, quando uma superpotência transforma a morte de seus próprios cidadãos em ficha de pôquer geopolítico, o que se está confessando é que nenhuma das duas partes leva o assunto a sério. O fentanil mata mais americanos por ano do que toda a guerra do Vietnã matou em uma década, e a solução proposta é cortar imposto sobre importação chinesa em troca de promessa vaga de cooperação. Promessa, repita-se, feita pelo mesmo regime que controla os laboratórios de precursores químicos.
Sobre Taiwan, o silêncio diplomático foi vendido como avanço, e a indústria de semicondutores da ilha respirou aliviada por mais alguns trimestres. Mas o silêncio de hoje é o ultimato de amanhã, e qualquer empresário que ainda monta planta industrial em território taiwanês acreditando em garantia de segurança baseada em comunicado conjunto está apostando o patrimônio em folha de papel. A história econômica está repleta de civilizações que confundiram trégua com paz e descobriram a diferença tarde demais. Pergunte aos comerciantes de Constantinopla em 1453, aos banqueiros de Viena em 1683, aos exportadores de Hong Kong em 2019. A trégua é sempre o intervalo entre dois capítulos da mesma guerra.
O que ninguém disse no comunicado oficial é o que mais importa. Cada acordo bilateral entre governos é, por definição, um acordo contra terceiros. Quando Washington e Pequim decidem quem compra soja de quem, o produtor argentino fica de fora. Quando combinam fluxo de chips, a Coreia do Sul e o Japão recebem o recado de que estão no banco de reservas. Quando barganham terras-raras, a África central, que detém parte dos depósitos estratégicos, vira figurante em sua própria geografia. É o velho mercantilismo travestido de geopolítica moderna, com a única diferença de que, no século vinte e um, os tributos são pagos em forma de inflação importada e juros reais comprimidos pelos bancos centrais que financiam essa farsa.
O preço dessa cúpula não está na manchete, está no que não se vê. Está no engenheiro brasileiro que não foi contratado porque uma empresa preferiu manter operação na China subsidiada. Está no consumidor americano que vai pagar dez por cento a mais no eletrônico que sustenta a tarifa que sustenta o lobby que sustenta o congressista que sustenta o teatro. Está no pequeno produtor que perdeu acesso ao crédito porque o Tesouro absorveu liquidez para financiar a próxima rodada de subsídios industriais. A diplomacia das fotos sorridentes sempre cobra sua taxa, e a taxa é cobrada de quem nunca recebe convite para o jantar oficial. Dois homens apertaram as mãos, e milhões de carteiras estremeceram sem saber por quê.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.