O dado saiu e ninguém em Pequim quis comentar com muito entusiasmo. O índice de preços ao produtor subiu de novo em agosto, o índice ao consumidor acompanhou, e o vilão da vez tem nome banal e efeito devastador: energia. Carvão, gás, eletricidade, o combustível que move a fábrica do mundo ficou mais caro, e como toda cadeia produtiva começa girando uma turbina em algum lugar, o encarecimento subiu pelo elevador da economia inteira, do galpão em Shenzhen até o carrinho de compras em Chengdu. O Partido que se orgulha de decidir por decreto onde a chuva cai descobriu, mais uma vez, que preço não obedece comitê.

Vale olhar para o que não aparece na manchete. A China passou a última década subsidiando eletricidade para manter a indústria pesada competitiva, financiando termoelétricas com crédito estatal barato, empurrando metas de transição verde de cima para baixo e, ao mesmo tempo, prendendo o preço final ao consumidor para simular estabilidade. É a mesma equação que o intervencionista repete há dois séculos e sempre com o mesmo resultado: quando o preço mente, o consumo mente junto, o investimento se distorce, e a conta vem depois, sempre depois, cobrada em dobro. Agosto foi só a fatura chegando.

E siga o dinheiro, porque ele conta a história melhor que qualquer porta-voz. Quem se beneficiou de anos de energia artificialmente barata foram os conglomerados estatais, as siderúrgicas favorecidas, as províncias com padrinho no Politburo. Quem pagou foi o contribuinte chinês, via inflação reprimida que agora explode, via poupança corroída, via yuan que perde poder de compra enquanto o Estado imprime para tampar rombo elétrico. O trabalhador que juntou moeda a moeda para comprar apartamento em Xangai está descobrindo que o subsídio à indústria pesada saiu do bolso dele o tempo todo. Não existe almoço grátis, muito menos jantar servido pelo Comitê Central.

Há uma ironia deliciosa em ver o regime que se apresenta ao mundo como modelo de gestão racional tropeçando no problema mais elementar da ciência econômica, aquele que qualquer feirante entende sem ter lido uma página de teoria. Se você força o preço da energia para baixo, consome-se energia demais. Se consome-se energia demais, falta energia. Se falta energia, o preço sobe. E quando o preço sobe apesar do decreto, o decreto vira piada e o povo aprende, na carne, que o burocrata sentado em Pequim não sabe menos que Deus, sabe menos que o dono do botequim da esquina, que ao menos entende o que os fregueses querem beber.

O detalhe que fecha o quadro é geopolítico. A China dependente de carvão importado, gás russo com desconto condicionado, petróleo do Golfo transportado por rotas que Washington pode estrangular numa tarde, é a China refém de fatores que nenhum plano quinquenal domestica. O modelo dirigista funciona enquanto a maré está alta e o mundo compra tudo que sai da esteira. Quando o vento vira, a fragilidade estrutural aparece, e nenhum discurso sobre socialismo com características chinesas segura o índice de preços quando o insumo básico da civilização industrial resolve custar o que realmente vale.

A lição, se alguém em Brasília estivesse disposto a ouvir, é que congelar preço de combustível, mexer em bandeira tarifária por conveniência eleitoral e turbinar estatal do setor elétrico para atender lobby amigo produz exatamente o mesmo desfecho, só que num prazo mais curto porque o Brasil não tem reserva cambial de três trilhões para adiar a conta. A diferença entre Pequim e nós é que lá o cidadão descobre a inflação lendo o índice; aqui, descobre no posto de gasolina antes de o índice sair.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.