A D-Wave Quantum, queridinha das manchetes que prometem revolucionar tudo desde criptografia até a previsão do tempo, divulgou seus números trimestrais e fez questão de cravar a expressão mágica do momento, "fase de comercialização". É a senha que toda empresa pré-receita usa quando precisa convencer o investidor de que o prejuízo recorrente é, na verdade, um investimento estratégico no futuro da humanidade. O detalhe inconveniente, sempre escondido no rodapé das apresentações, é que a "comercialização" continua dependendo de rodadas de capital, contratos com laboratórios estatais e parcerias acadêmicas subsidiadas. Quer dizer, o cliente final ainda é, em boa medida, o contribuinte disfarçado de visionário.

Olha, computação quântica é coisa séria, e ninguém sensato nega que existe ciência real ali. O problema não é a física, é a contabilidade. A diferença entre uma tecnologia que mudou o mundo e uma que virou cemitério de PowerPoints está exatamente no ponto em que o produto começa a ser comprado por gente que paga do próprio bolso, não por agência governamental que assina cheque com dinheiro alheio e chama isso de inovação. Enquanto a receita vier majoritariamente de programas de fomento, departamentos de defesa e universidades públicas, o que se está vendendo não é tecnologia, é narrativa.

Me diz uma coisa, por que ações como essa disparam dois dígitos num dia de balanço medíocre e despencam no seguinte? Porque o ativo não está sendo precificado pelo fluxo de caixa descontado, está sendo precificado pela injeção de liquidez que os bancos centrais despejaram no sistema na última década e meia. Quando o dinheiro é barato e abundante, todo conceito futurista vira unicórnio. Quando o dinheiro custa caro, o mesmo conceito vira aula de ceticismo. A bolha não está na quântica, está no juro artificial que financia a euforia. O computador é honesto; o ambiente monetário é que mente.

Segue o dinheiro e a coisa fica mais clara ainda. Boa parte dos contratos celebrados como prova de "tração comercial" são na verdade convênios com laboratórios nacionais, programas de defesa e iniciativas governamentais de soberania tecnológica. É o velho arranjo de sempre, empresa privada na fachada, ordenhador de orçamento público na engrenagem. O lobby vende a tese de que o país precisa estar na corrida quântica para não ficar atrás da China, e voilà, o subsídio aparece embrulhado em bandeira. O acionista comemora, o engenheiro recebe, o pesquisador publica, e o sujeito que paga imposto descobre apenas no fim do ano que financiou mais um capítulo da aventura.

Há ainda o capítulo do que ninguém mostra no slide. Para cada dólar que entrou na D-Wave via emissão de ações, há um dólar que não foi alocado em algum outro empreendimento, talvez menos glamouroso, mas com cliente real, margem real e produto que alguém compra sem que um burocrata assine antes. Esse capital desviado não aparece em lugar nenhum, não vira manchete, não tem coletiva. É o custo invisível de toda febre tecnológica patrocinada por liquidez fácil, e ele só aparece quando a maré baixa e se descobre quem estava nadando pelado. A história das últimas três décadas é farta em exemplos, dos pontocom às fintechs zumbis, passando pelo metaverso que sumiu sem aviso prévio.

O veredito honesto, sem o verniz das casas de análise que dependem do mesmo banco que coordena as emissões, é que a D-Wave pode até virar uma empresa relevante daqui a dez anos, ou pode virar nota de rodapé nos livros sobre a era do dinheiro grátis. O que ela não é, hoje, é uma operação que se sustenta por mérito comercial puro. E enquanto o mercado tratar promessa como entrega e subsídio como receita, vai continuar produzindo o mesmo ciclo de êxtase e ressaca que sempre produziu. Computação quântica resolverá, talvez, problemas formidáveis no futuro. A bolha que a cerca, essa, segue sendo resolvida do jeito de sempre, com o bolso de quem nunca foi consultado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.