A D.A. Davidson reiterou a classificação de compra para as ações do Wintrust Financial e cravou preço-alvo de cento e sessenta e cinco dólares. Pronto, a liturgia foi cumprida. O analista escreveu o relatório, o terminal Bloomberg piscou em verde, os gestores de fundo sorriram na tela, e a máquina de fabricar otimismo seguiu girando com a fluidez de sempre. O que ninguém pergunta, porque perguntar é deselegante nessas rodas, é o seguinte: de onde vem, afinal, a rentabilidade que sustenta esses preços-alvo generosos?
Wintrust é um banco regional de Chicago, do tipo que vive do spread entre captação barata e empréstimo caro, exatamente como qualquer banco desde que o mundo é mundo. A diferença é que, nas últimas duas décadas, o spread deixou de ser fruto de boa gestão e virou subproduto de um sistema em que o custo do dinheiro é decidido por um comitê de doze pessoas em Washington que acha, sinceramente, que sabe qual deve ser o juro de uma economia de vinte e sete trilhões de dólares. Quer dizer, existe arrogância, e existe a pretensão de um punhado de doutores imaginar que consegue precificar o tempo para trezentos e trinta milhões de pessoas simultaneamente.
O que o relatório da D.A. Davidson não conta, porque não é função dele contar, é que os bancos regionais americanos atravessaram 2023 com silicon valley bank, signature e first republic indo para o buraco exatamente por terem se alongado em títulos de renda fixa enquanto o Fed inflava balanço como se não houvesse amanhã. Quando o amanhã chegou e os juros subiram, o castelo de cartas caiu. A resposta? Mais garantias, mais linhas de emergência, mais socialização de prejuízo. O lucro continua privado, o risco continua público, e os analistas continuam reiterando compra. Olha, se isso não é capitalismo de compadrio em estado puro, eu gostaria de saber o que é.
Me diz uma coisa, quando um analista projeta cento e sessenta e cinco dólares para um papel, o que ele está dizendo é que espera crescimento consistente de receita, expansão de margem, qualidade de crédito preservada. Tudo isso depende de uma premissa invisível que ninguém escreve no relatório: que o Federal Reserve continuará a fornecer liquidez abundante sempre que algo der errado. Sem essa muleta, o modelo desaba. O preço-alvo, portanto, não é uma projeção sobre o Wintrust. É uma aposta na continuidade do socorro perpétuo. O banco é a vítrine; o governo é o patrocinador silencioso.
Enquanto o contribuinte americano paga inflação de seis por cento acumulada nos últimos três anos, vê o poder de compra ser corroído pela impressora, e trabalha mais horas para manter o mesmo padrão, os acionistas do Wintrust comemoram o upgrade. O que se vê é o papel subindo na bolsa. O que não se vê é a aposentada de Ohio perdendo quinze por cento do seu poupança em termos reais para que o spread bancário continue generoso. Toda política monetária tem beneficiários e pagadores; a genialidade do arranjo atual é que os pagadores raramente descobrem que estão pagando.
O relatório da D.A. Davidson está tecnicamente correto dentro do jogo em que foi escrito. O problema não é o analista. O problema é o jogo. Um sistema financeiro que só funciona com respiração artificial não é sistema; é dependência química institucionalizada. E quando a próxima crise vier, e ela virá, porque sempre vem, os mesmos que hoje carimbam compra estarão na televisão explicando que ninguém poderia ter previsto. A impressora resolve tudo, até o dia em que não resolve mais nada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.