A DA Davidson reiterou recomendação de compra para a monday.com, e a justificativa, claro, é o tal "crescimento impulsionado por IA". Note o detalhe que ninguém comenta na CNBC: a recomendação não veio acompanhada de uma demonstração séria de que o produto resolve algo que planilha caprichada não resolva. Veio acompanhada de duas letras. Duas letras que, em 2026, funcionam no mercado financeiro como funcionavam as relíquias na Idade Média, abençoam qualquer coisa, justificam qualquer preço, dispensam qualquer prova.

Olha, quem viveu o ciclo das pontocom em 1999 sabe exatamente o cheiro disso. Antes era só pendurar ".com" no nome da empresa e o múltiplo dobrava. Depois foi "blockchain". Depois "metaverso". Agora é "IA". O sufixo muda, o mecanismo é o mesmo, dinheiro fácil precisa de história fácil. Quando o Banco Central injeta liquidez por anos e juros reais ficam achatados, capital procura desesperadamente onde se enfiar, e a narrativa preenche o vazio que a análise sóbria deveria ocupar. Não é coincidência que a febre da inteligência artificial estoura justamente no fim de um ciclo monetário expansionista; é consequência.

Me diz uma coisa, quem ganha quando uma corretora carimba "compra" numa ação que já subiu? O analista que mantém relacionamento com o cliente institucional, o banco que coloca papel novo na praça, o gestor que precisa justificar o portfólio com nomes da moda, o executivo da própria empresa cujas stock options engordam com o múltiplo inflado. E quem paga? O fundo de pensão do trabalhador, o aposentado que comprou ETF achando que estava diversificando, o pequeno investidor que entrou no topo porque a manchete disse que era seguro. A conta dessa festa nunca chega para quem serve o champanhe.

O detalhe mais cômico é o vocabulário. "Crescimento impulsionado por IA" não significa absolutamente nada do ponto de vista contábil. Cresceu receita? Quanto? Veio de cliente novo ou de aumento de preço empurrado goela abaixo da base instalada? A margem operacional aumentou ou a empresa está queimando caixa para sustentar a narrativa? Você não vai encontrar essas respostas no relatório de quem recomenda comprar, vai encontrar adjetivos. Adjetivo é o último refúgio de quem não tem número.

Há uma diferença civilizacional entre criar valor e capturar percepção. Empresa que cria valor produz algo que o cliente paga voluntariamente porque sai ganhando, e o lucro é a evidência objetiva dessa troca livre. Empresa que captura percepção produz slides, comunicados e parcerias estratégicas, e o lucro depende de continuar convencendo o próximo comprador da ação a pagar mais caro que o anterior. Uma é capitalismo, a outra é cadeia. Distinguir as duas no meio de um boom alimentado por liquidez artificial é trabalho que o investidor sério faz sozinho, porque a indústria de análise vendida tem incentivo estrutural para confundir os dois.

O remédio? Desconfie de qualquer recomendação que use mais buzzwords que números. Pergunte sempre quem está do outro lado da mesa quando alguém te diz que é hora de comprar. E lembre, no fim de todo ciclo de exuberância tem um pessoal segurando papel sem comprador, enquanto os que carimbaram "compra" já estão recomendando o próximo milagre tecnológico, com cara limpa e nome novo. A música para, alguém fica sem cadeira, e nunca é quem escreveu o relatório.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.