Dana White, presidente do UFC, estava ao lado de Donald Trump quando os disparos começaram. A reação dele não foi se atirar embaixo da mesa, não foi gritar por segurança, não foi pedir um copo d'água e um terapeuta. Ele ficou olhando, achou tudo aquilo extraordinário e disse depois, com a tranquilidade de quem comenta um nocaute no quinto round, que aproveitou cada minuto. Recusou abrigo. Ficou de pé. E quando a poeira baixou, declarou em rede mundial que foi incrível. Você pode achar a frase de mau gosto, pode achar bravata de quem ganha a vida vendendo briga, mas existe ali um dado antropológico que merece atenção, porque a reação contrasta de forma quase obscena com o repertório emocional que o ocidente vem cultivando há quarenta anos.

Repare bem no que essa cena revela. Temos uma classe dirigente global que constrói universidades inteiras em torno do conceito de espaço seguro, que treina executivos para terem medo de palavras, que medica adolescentes por ansiedade existencial diante de uma prova de matemática, e que produz documentários inteiros sobre o trauma coletivo de ter ouvido uma piada inadequada num jantar de Natal. Esse mesmo ocidente, financiado com trilhões em programas terapêuticos, em treinamentos de sensibilidade, em consultorias de bem-estar emocional corporativo, assiste atônito a um sujeito que viu balas voarem perto da cabeça e respondeu com um sorriso. A dissonância é o ponto. Não é o tiroteio, é o que o tiroteio expõe.

Siga a trilha do dinheiro e o quadro fica mais nítido ainda. A indústria do trauma virou um setor econômico colossal, com seus consultores, seus livros de autoajuda, suas certificações ridículas, suas verbas públicas para programas que ensinam servidor público a respirar fundo. Quanto mais frágil a população, maior o orçamento. Quanto maior o orçamento, mais frágil a população precisa parecer. É um ciclo de retroalimentação onde a covardia se tornou modelo de negócio, e onde qualquer demonstração espontânea de coragem ameaça a tabela de preços. Por isso o riso de Dana White incomoda tanto quem nunca pisou num ringue nem precisou enfrentar nada mais perigoso que o algoritmo do LinkedIn.

O ponto mais profundo, contudo, não é econômico, é civilizacional. Toda sociedade que sobrevive ensina seus filhos a olharem o perigo de frente, porque sabe que o perigo voltará, sempre volta, e que populações histéricas são presas fáceis para qualquer aventureiro com poder de polícia ou poder de microfone. Quando você infantiliza adultos em nome do cuidado, está produzindo súditos prontos para qualquer tutela, dispostos a entregar liberdade em troca de qualquer promessa de proteção. O homem que precisa que alguém regule o que ele come, o que ele lê, o que ele pode rir, o que ele pode dizer, é o mesmo homem que, na hora da bala perdida, vai chorar embaixo da mesa esperando o Estado vir buscá-lo. E o Estado, claro, vem. Cobra a fatura depois.

O que torna o episódio simbolicamente delicioso é que aconteceu ao lado justamente do político mais detestado pelos engenheiros dessa fragilidade fabricada. Trump não é santo, não é estadista impecável, não é nada disso. Mas ele e gente como Dana White representam um tipo humano que a engenharia social das últimas décadas tentou erradicar a marteladas, o sujeito que não pede licença para existir, que não consulta o terapeuta antes de ter uma opinião, que encara o caos com algo parecido com bom humor. É exatamente esse tipo que assusta os arquitetos do bem-estar gerenciado, porque ele prova, só de existir, que a mansidão programada não é destino, é escolha.

No fim, a frase do Dana White vai ser tratada como bravata grotesca pelos jornais sérios, aqueles que nunca acharam grotesco financiar oficina de pronomes com dinheiro do contribuinte. Mas vai ficar gravada na memória de quem entendeu o recado. Coragem não é crime, medo programado não é virtude, e nenhuma civilização sobreviveu transformando seus homens em vasos de porcelana. Quem ri da bala que passou raspando entendeu algo que a sociologia premiada gastou décadas tentando desensinar, que viver é perigoso, sempre foi, e fingir o contrário só serve para engordar o orçamento de quem vende a ilusão.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.