Existe uma cena que se repete com regularidade impressionante ao longo da história econômica: enquanto o político convoca audiências públicas, elabora regulamentos e nomeia comitês para "estudar o fenômeno", o mercado já identificou a oportunidade, calculou o risco e começou a embolsar o lucro. A febre global dos data centers, combustível físico da chamada revolução da inteligência artificial, está produzindo exatamente este espetáculo, só que desta vez a janela aberta não é de milhões, é de dez bilhões de dólares, e quem a descobriu foi o setor de seguros.
A S&P Global Ratings, que não costuma exagerar quando o assunto é dinheiro, classificou o boom de cobertura para construção de data centers como uma "oportunidade de crescimento significativa" para as seguradoras, capaz de superar mercados tradicionais que levaram décadas para amadurecer. Traduzindo do economês corporativo: existe demanda real, volume real, risco real a ser precificado, e quem dominar essa precificação vai acumular receita em escala que faz o olho brilhar. Isso não é especulação, é o sinal de preço funcionando, reunindo informação dispersa em milhares de decisões individuais e convertendo-a em número útil para quem precisa decidir se constrói ou não constrói um galpão de servidores no meio do deserto do Arizona.
A cadeia de causalidade é simples, porém reveladora. O mundo quer inteligência artificial. Inteligência artificial consome uma quantidade obscena de energia elétrica e hardware especializado dentro de estruturas físicas enormes, caríssimas e vulneráveis a todo tipo de sinistro: incêndio, falha de refrigeração, sobrecarga elétrica, eventos climáticos extremos e uma lista crescente de ameaças que nenhum comitê parlamentar foi capaz de antecipar porque estava ocupado demais discutindo se o ChatGPT é perigoso para a democracia. Essas estruturas precisam de seguro. Muito seguro. O setor segurador, que existe precisamente para converter incerteza em custo calculável, chegou a esta conclusão antes de qualquer decreto ministerial.
Siga o dinheiro e você encontra a arquitetura real da economia do século XXI. As grandes empresas de tecnologia, os fundos de infraestrutura, os governos que tentam montar sua própria capacidade computacional soberana, todos estão despejando capital em concreto, fibra óptica, chillers industriais e racks de GPU a um ritmo que a própria indústria da construção mal consegue acompanhar. Cada centavo desse investimento representa um ativo que pode pegar fogo, inundar, ser sabotado, enferrujar ou simplesmente parar de funcionar no pior momento possível. O mercado segurador identificou que a demanda por cobertura cresceu mais rápido do que a capacidade de oferta e está se posicionando para preencher o gap. Não houve lei, não houve plano quinquenal, não houve discurso de posse. Houve preço, houve risco, houve decisão.
O que a notícia não diz, mas a lógica revela, é o que esse movimento significa para o restante da economia. Uma seguradora que desenvolve expertise em data centers está, na prática, criando conhecimento especializado que o mercado vai demandar por décadas. Ela está contratando engenheiros que entendem de infraestrutura crítica, atuários que modelam falhas em sistemas de refrigeração de precisão, juristas que redigem cláusulas para sinistros que nem existiam há cinco anos. Cada passo dessa cadeia é criação de valor real, não redistribuição de valor alheio financiada por imposto. Nenhum ministério do Planejamento teria como montar este arranjo por decreto, porque o conhecimento necessário não existe de forma centralizada, existe disperso, fragmentado, acumulado por experiência prática, e só o sistema de preços consegue reunir tudo isso de forma que funcione.
Enquanto isso, os legisladores do mundo coordenam cúpulas sobre "governança da IA", produzem documentos com nomes grandiosos e reivindicam o direito de supervisionar uma indústria que não entendem para proteger cidadãos que não pediram proteção. O mercado, imune a essa liturgia, já passou para o próximo capítulo. Dez bilhões de dólares é apenas o começo, e a conta vai crescer na proporção exata em que o mundo decidir que quer mais computação, mais dados, mais inteligência artificial. O Estado chegará depois, como sempre chega: tarde, com formulário na mão e olho no faturamento.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.