A Datadog anunciou esta semana que conquistou a certificação FedRAMP High, o nível máximo de autorização para fornecedores de nuvem que querem hospedar dados classificados do governo dos Estados Unidos. O mercado reagiu com entusiasmo, os analistas de banco fizeram fila para elevar o preço-alvo da ação, e a imprensa especializada tratou o assunto como mais uma vitória técnica de uma empresa inovadora. Quer dizer, ninguém pergunta o óbvio. O que exatamente significa uma empresa privada se tornar oficialmente o cofre digital do aparato federal mais bisbilhoteiro do planeta?
O FedRAMP não é apenas um certificado de qualidade. É uma chave de ouro que abre o cofre dos contratos públicos americanos, um mercado de centenas de bilhões de dólares onde o cliente nunca discute preço porque o dinheiro não é dele. É o contribuinte do Kansas pagando para que a CIA monitore seus próprios servidores usando a tecnologia da empresa que agora tem incentivo financeiro permanente para que o aparato de vigilância cresça, não diminua. Olha, isto não é capitalismo. Capitalismo é quando o empresário arrisca capital próprio para servir o consumidor que pode dizer não. Isto aqui é outra coisa, e tem nome antigo.
Sempre que uma corporação se transforma em fornecedora preferencial do Leviatã, alguma coisa morre silenciosamente no contrato social. A empresa passa a ter dois clientes, o mercado e o governo, e descobre rapidamente que o segundo paga melhor, atrasa menos e não reclama de bug. A partir dali, toda decisão técnica, toda contratação, toda escolha de produto começa a ser filtrada pela pergunta invisível: isto agrada Washington? E quando a resposta vira hábito, a inovação que nasceu para resolver problemas reais de engenheiros se converte em ferramenta de conformidade burocrática. O produto fica pior. O preço fica maior. E o consumidor comum, aquele que usa Datadog para monitorar sua aplicação web, paga indiretamente pelo overhead regulatório que ele jamais consumiu.
Tem um detalhe que escapa aos entusiastas. Quando uma empresa de monitoramento, cuja função literal é observar tudo o que acontece dentro dos sistemas dos clientes, passa a hospedar dados de agências federais com poder de quebrar sigilo, emitir mandados secretos e exigir cooperação silenciosa, o que se está construindo é a infraestrutura técnica de uma vigilância de massa que nem o mais paranoico dos burocratas soviéticos conseguiu sonhar. Não porque os engenheiros da Datadog sejam vilões. Mas porque uma vez que a ferramenta existe, e uma vez que o Estado tem acesso legal a ela, a tentação de usá-la se torna irresistível. Ferramenta que pode ser usada, será usada. E quem garante que não será apontada para dentro?
O brasileiro lê esta notícia distraído porque parece distante, coisa de gringo. Não é. As mesmas grandes empresas de nuvem que hoje recebem o selo americano são as que hospedam dados do governo federal brasileiro, dos tribunais, da Receita, das estatais. A lógica é idêntica, apenas com sotaque diferente e fiscalização infinitamente pior. Enquanto o debate público se entretém com bobagens de marketing tecnológico, a infraestrutura crítica da nossa vida digital vai sendo terceirizada para um punhado de fornecedores globais que respondem a governos estrangeiros antes de responder a qualquer cliente. Soberania digital virou piada interna do setor, e ninguém ri porque ninguém entendeu.
No fim, o que se festeja como conquista corporativa é apenas mais uma etapa da fusão silenciosa entre poder econômico concentrado e poder estatal expansivo, aquele arranjo confortável onde os dois lados ganham e o cidadão comum paga, primeiro com impostos, depois com privacidade, e por último com a liberdade. Aplaudir a Datadog hoje é aplaudir as próprias algemas amanhã, douradas e com suporte técnico vinte e quatro horas.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.