A DaVita, gigante americana de hemodiálise, fechou o primeiro trimestre de 2026 acima das estimativas dos analistas, com lucro por ação subindo em ritmo que faz acionista sorrir e concorrente suar. Receita robusta, margem operacional defendida mesmo com pressão de custos trabalhistas, recompra de ações para sinalizar confiança. Em Wall Street, isso é manchete morna de quarta-feira. No Brasil, seria escândalo nacional, CPI marcada, ministro da Saúde indo à TV explicar por que "a saúde virou mercadoria". Pois é exatamente aí que mora a piada triste.

Hemodiálise não é um serviço qualquer. É o que separa, literalmente, o paciente renal crônico da morte. Três sessões por semana, cada uma de quatro horas, pelo resto da vida ou até o transplante, que pode nunca vir. Nos Estados Unidos, a DaVita atende milhões de americanos numa rede que funciona porque alguém, em algum lugar, calcula custo, otimiza turno, investe em equipamento novo e responde a um conselho que cobra resultado. No Brasil, o paciente que depende do SUS reza para a clínica conveniada do bairro não fechar as portas no meio do mês porque o repasse atrasou seis meses, como sempre atrasa.

Olha, a coisa é mais pedagógica do que parece. O lucro da DaVita não é tirado do paciente, é a consequência de servi-lo bem o suficiente para que o sistema, o convênio, o Medicare continuem mandando gente para lá. O incentivo está alinhado: se o serviço piora, o paciente migra, o pagador troca, o acionista pune. No modelo brasileiro, a clínica privada conveniada recebe uma tabela SUS que não cobre o custo real do procedimento, opera no vermelho subsidiada pela parte particular do negócio, e ainda assim é xingada de "exploradora" pelo militante que nunca colocou uma agulha de fístula em ninguém. Quando ela quebra, o paciente vira estatística e o ministro promete força-tarefa.

Quer dizer, segue a trilha do dinheiro e tudo fica claro. A receita da DaVita vem de pagadores que negociam preço, exigem qualidade e auditam resultado. O dinheiro do SUS vem do contribuinte, é distribuído por critério político, e o paciente, que deveria ser o cliente, não tem nenhum poder de barganha porque não escolheu, não paga diretamente, não pode trocar. O resultado é o que se vê: lá uma empresa cresce porque o sistema premia quem entrega; aqui o sistema pune quem entrega e protege quem fatura nota fria. A diferença entre eficiência e tragédia coletiva cabe nessa única frase.

E há a parte que ninguém quer encarar: a hemodiálise privada brasileira, mesmo asfixiada pela tabela, ainda é o que segura o sistema de pé. Sem as clínicas conveniadas, o SUS colapsava em uma semana. O Estado depende do mercado que finge desprezar, e o militante que pede a "estatização total" da saúde está, sem perceber, pedindo a morte mais rápida de quem ele jura defender. É a velha história de quebrar a janela achando que aquece a economia, só que com vida humana no lugar do vidro.

A lição do balanço da DaVita não é sobre capitalismo de hospital, é sobre realidade. Onde há liberdade de escolher, capital privado disposto a investir e responsabilidade contratual com o resultado, o serviço melhora e o paciente vive mais. Onde há tabela imposta, fila administrada por burocrata e dinheiro do contribuinte usado para comprar voto, o paciente morre na cadeira esperando vaga. Não existe meio termo confortável aqui, existe um sistema que funciona e outro que mata, e a teimosia ideológica brasileira em chamar o primeiro de "desumano" enquanto venera o segundo é o sintoma mais avançado de uma doença civilizacional que nenhuma sessão de diálise consegue filtrar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.