A notícia parece banal, quase comercial de fim de tarde, mas vale a pena parar e olhar com calma. A Dell anunciou o XPS 13 por seiscentos e noventa e nove dólares para enfrentar de igual para igual o novo MacBook Neo, que a Apple vinha vendendo como se fosse joia de coroa. Em menos de uma semana, fórum de tecnologia, canal de YouTube e até a tia que mal sabe ligar o computador estão comparando especificação, preço e desconto. Isso, meu caro leitor, é exatamente o que se chama de mercado funcionando. Não houve decreto, não houve audiência pública, não houve secretaria de inovação reunindo notáveis em mesa redonda. Houve uma empresa que olhou para a concorrente, calculou margem, apertou fornecedor e baixou preço. Ponto.
Repare no detalhe que ninguém comenta. A Apple passou anos vendendo a ideia de que cobrar caro era sinônimo de qualidade superior, que a margem de quarenta por cento era o preço da inovação, que reclamar era coisa de quem não entende design. E funcionou enquanto não havia alternativa real apertando o pescoço dela. No instante em que aparece um concorrente disposto a sangrar margem para roubar mercado, o discurso de superioridade evapora e o consumidor descobre que aquele prêmio que pagava era, em boa medida, tributo cobrado por quem não tinha competidor à altura. Monopolista nenhum confessa ser monopolista. Ele se chama de excelência, de premium, de ecossistema.
Agora pense no contraste com tudo aquilo que o Estado toca. Quando foi a última vez que algum serviço público brasileiro caiu de preço porque um concorrente surgiu mais eficiente? A conta de luz sobe sozinha, o pedágio sobe sozinho, o imposto sobe sozinho, e a justificativa sempre é a mesma cantilena sobre custos, investimentos necessários, equilíbrio econômico-financeiro. Repare na assimetria moral. A Dell baixa preço para competir e ninguém aplaude, porque competir é a obrigação de quem opera no mercado livre. O governo mantém preço alto e ainda exige reverência por estar prestando um serviço. O mercado pede licença para servir. O Estado cobra ingresso para existir.
Há outra camada nesta história que merece comentário. Toda vez que aparece uma briga assim, surge no debate público o coro de sempre pedindo regulação para proteger o consumidor, taxa adicional para a empresa estrangeira, política industrial para o fabricante nacional, salvaguarda para o trabalhador da fábrica concorrente. É o velho truque de transformar a vitória do consumidor em problema de Estado. Cada lobista, cada associação setorial, cada parlamentar com gabinete a defender vai tentar abocanhar uma fatia desse movimento natural de preço caindo. E o que se vê é a manchete da redução. O que não se vê é o exército de gente em Brasília trabalhando para que ela seja revertida via tributo, via cota, via exigência técnica disfarçada de proteção.
O cidadão atento deve, portanto, comemorar com cautela. A queda de preço é vitória legítima do consumidor, mas é também alvo móvel para quem vive de capturar legislador. Quem perde participação de mercado quase nunca aceita perder em silêncio. Vai bater na porta do regulador, vai contratar escritório, vai patrocinar estudo encomendado provando que a concorrência é desleal, predatória, antinacional, ambientalmente irresponsável, escolha o adjetivo da estação. A pilhagem moderna não se faz mais com espada, faz-se com parecer técnico assinado por consultoria respeitável.
Fica a lição que nenhum manual de economia bancária vai te ensinar de graça. Preço baixo não é milagre, é sintoma. Sintoma de que existe concorrência viva, fornecedor pressionado, consumidor com opção. Toda vez que algo fica artificialmente caro por muito tempo, procure o cartório onde foi registrado o privilégio. Sempre tem um. E toda vez que algo fica barato de repente, agradeça a quem brigou, não a quem regulamentou. A Apple foi obrigada a olhar no espelho porque a Dell apontou o dedo. Esse é o único mecanismo civilizatório que a humanidade inventou para manter empresa grande honesta. Tudo o mais é conversa para boi dormir enquanto o consumidor paga a conta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.