A agência de informação energética dos Estados Unidos acaba de admitir, com aquela frieza burocrática que esconde tragédias inteiras, que o consumo de eletricidade no país vai pulverizar recordes históricos nos próximos dois anos. Depois de quase duas décadas de demanda estagnada, a curva subiu de repente como se alguém tivesse ligado todos os interruptores do continente ao mesmo tempo. E ligou mesmo. Os galpões de inteligência artificial, os data centers do Vale do Silício, a reindustrialização forçada por subsídio federal e a frota crescente de carros elétricos, todos esses convivas chegaram juntos no jantar, sentaram à mesa e começaram a comer pela borda.

Olha, a coisa toda tem uma simetria poética que merece ser saboreada. Durante quinze anos sucessivos, os mesmos burocratas que hoje torcem as mãos diante da escassez iminente fecharam usinas a carvão por decreto, sabotaram projetos nucleares por regulação, embargaram gasodutos por capricho ambientalista e gastaram trilhões em painéis solares chineses e turbinas eólicas que produzem energia quando o vento entende que deve soprar. Agora que a demanda explode, descobrem com cara de espanto que apagar a oferta enquanto se aumenta o consumo gera, vejam só, escassez. Não foi preciso nenhum gênio para prever isso. Bastava saber somar.

Quer dizer, a parte mais saborosa do enredo é descobrir quem ficará com o filé e quem lavará a louça. Os data centers das gigantes de tecnologia, esses que sugam mais eletricidade que cidades médias inteiras, têm contratos preferenciais, isenções fiscais e linhas dedicadas negociadas em gabinete. As fábricas que voltaram para o solo americano via subsídios bilionários do pacote de chips e do pacote verde também não vão pagar a tarifa do cidadão comum. Quem paga, então? O sujeito que liga o ar condicionado no verão, a viúva que aquece a casa no inverno, o pequeno comerciante que vê a fatura dobrar enquanto o vizinho corporativo recebe crédito tributário para consumir mais. Siga o fio elétrico e encontrará sempre o mesmo bolso aberto na ponta.

E aqui mora a falácia visível. Anunciam o boom de demanda como sinal de pujança econômica, como prova de que a economia está aquecida, como troféu de uma reindustrialização triunfante. Veem o canteiro de obras iluminado, a nova fábrica funcionando, o data center zumbindo. O que não veem, porque é invisível por definição, é o capital que foi desviado de mil usos produtivos para financiar essa orgia energética por meio de impostos, dívida federal e impressão monetária. Não veem as pequenas empresas que fecharam porque a conta de luz inviabilizou a operação. Não veem a poupança das famílias corroída pela inflação tarifária que vem a reboque. Não existe almoço grátis, mesmo quando a luz fica acesa a noite toda no banquete dos amigos do rei.

Me diz uma coisa, qual é a diferença entre o mercantilismo do século dezoito e o capitalismo de compadrio do século vinte e um? Naquele tempo, o rei distribuía monopólios reais para os mercadores favoritos. Hoje, o presidente distribui créditos fiscais, contratos de fornecimento e prioridade na rede para os mercadores favoritos. A casaca mudou, o esquema permanece intacto. E o resultado é sempre o mesmo, alocação artificial de recursos, distorção dos preços relativos, bolha de investimento concentrada onde o subsídio aponta, colapso quando a torneira fechar. Porque vai fechar. Sempre fecha.

O recorde de demanda elétrica anunciado com pompa é, na verdade, a fotografia de uma economia que não escolhe mais o que produzir pela voz dispersa de milhões de consumidores nos preços, mas pela voz concentrada de meia dúzia de planejadores em Washington nos decretos. É um sistema que apaga usina velha por ideologia e promete usina nova por fé, que pune o combustível barato e financia o caro, que tributa o consumidor pobre para iluminar o data center rico. A conta dessa festa chegará, como sempre chega, e o garçom não aceitará promessa de campanha como forma de pagamento.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.