A F5 reportou crescimento de 22% em produtos no segundo trimestre fiscal de 2026, e a explicação cabe num parágrafo de relatório, embora os analistas de Faria Lima precisem de quarenta páginas para dizer a mesma coisa. A demanda por inteligência artificial gerou uma corrida por capacidade de tráfego, segurança de aplicação e balanceamento de carga em escala que nenhum data center planejou três anos atrás. Quem fabrica os equipamentos que fazem esse tráfego não engasgar está vendendo tudo que produz. Não é mágica, não é bolha, é tubulação. E tubulação se paga.
Olha, há uma certa comédia em ver economistas e jornalistas debatendo se a IA é uma bolha enquanto empresas como a F5, a Arista, a Cisco e a Broadcom imprimem dinheiro vendendo o equivalente moderno da pá e da peneira. Na corrida do ouro de 1849, quase nenhum garimpeiro ficou rico. Quem ficou rico foi quem vendia calça jeans, picareta e mantimento. A história não se repete, mas rima de um jeito quase insultuoso. Os fundos de investimento gastam fortunas tentando adivinhar qual modelo de linguagem vai dominar o mercado, e enquanto isso o lucro de verdade está sendo embolsado por quem vende o cabo, o switch e o software que faz o pacote chegar do ponto A ao ponto B sem cair.
Quer dizer, isso revela algo que o discurso oficial sobre tecnologia teima em esconder. A inovação que aparece na manchete, o chatbot espertinho, o gerador de imagem, o agente que escreve relatório, é a ponta visível de uma cadeia industrial profundíssima e essencialmente invisível para o público. Cada vez que alguém pede ao modelo para resumir um PDF, há toneladas de aço, silício, fibra ótica, energia elétrica e equipamentos de rede trabalhando nos bastidores. O Estado, que adora regular o que enxerga e ignora o que sustenta, mira o aplicativo e nunca a tubulação. Por isso a tubulação prospera enquanto o aplicativo apanha.
E aqui mora a lição que ninguém de Brasília vai aprender. Esse crescimento de 22% não saiu de subsídio, não saiu de PAC da inteligência artificial, não saiu de banco público, não saiu de fundo soberano com nome bonito. Saiu de empresas privadas tomando decisões privadas com capital privado em busca de lucro privado. Cada decisão errada custa o emprego do executivo que assinou o contrato. Cada decisão certa engorda o balanço. Esse mecanismo, banal de tão repetido, é o que nenhum comitê estatal jamais conseguiu replicar, porque a informação que move o mercado está espalhada em milhões de cabeças tomando milhões de pequenas decisões por dia, e nenhum gabinete consegue agregar isso em planilha.
Me diz uma coisa: por que ninguém comemora essa notícia no Brasil? Porque não há subsídio para celebrar, não há ministério para inaugurar, não há programa social para batizar com nome de político. A geração espontânea de riqueza, o tipo que acontece quando o governo está olhando para o outro lado, é justamente o tipo que o noticiário econômico brasileiro não sabe processar. Acostumaram tanto a economia a depender de Brasília que esqueceram como ela funciona quando a deixam em paz. A F5 cresce 22% porque alguém precisa do produto dela e está disposto a pagar. Fim da história. Não precisa de reforma tributária para isso, não precisa de política industrial, não precisa de plano plurianual.
O detalhe que merece ser sublinhado é o seguinte. Toda vez que o discurso público trata a tecnologia como se fosse um totem mágico que precisa de tutela estatal, está mentindo sobre o que faz a engrenagem girar. O que faz girar é o sujeito chato de gravata que vende equipamento de rede, o engenheiro que otimiza o roteamento, o investidor que arriscou capital quando o resto do mercado ria. A inteligência artificial será o que esses sujeitos permitirem que ela seja, e não o que o último whitepaper de Davos prometer. Enquanto o jornalismo de negócios fica fascinado pelo brilho da fachada, o lucro está sendo contado nos fundos da loja, em silêncio, por quem entendeu que vender picareta é melhor negócio que prospectar ouro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.