A cena seria cômica se não fosse trágica. Um grupo de deputados em Washington, gente que não conseguiria administrar uma locadora de filmes sem quebrar em seis meses, resolve convocar o CEO da Paramount para prestar contas sobre a possível compra da Warner Brothers. Note bem o verbo: prestar contas. A duas empresas privadas, com acionistas privados, negociando um contrato privado, agora se exige que expliquem suas intenções a uma comissão de políticos que jamais arriscou um dólar próprio em coisa alguma. E o público assiste como quem vê o trânsito parar para a passagem de uma autoridade qualquer, sem perguntar quem deu a ela o direito de passar.

O argumento oficial, claro, vem embrulhado nos papéis de seda de sempre: concentração de mercado, pluralidade da informação, defesa do consumidor. É o vocabulário tecnocrático que serve para tudo e não significa nada, porque sob ele se esconde a verdade incômoda de que congressista nenhum no planeta perde sono com pluralidade quando o conglomerado em questão é aliado político. Quando o estúdio produz o filme certo, distribui a narrativa certa e financia a causa certa, ninguém pergunta sobre concentração. A preocupação súbita com o tamanho das empresas tem um curioso hábito de aparecer exatamente quando a empresa contraria alguém em Brasília, Bruxelas ou Washington.

Siga o dinheiro e o teatro se ilumina. Quem ganha quando uma fusão é travada? Concorrentes que não conseguiram fechar negócio melhor, lobistas contratados para emperrar o processo, escritórios de advocacia que cobram milhões para navegar o pântano regulatório que os próprios congressistas criaram, e os políticos no centro da cena, que recebem doações de campanha de todos os lados interessados em influenciar o desfecho. O consumidor americano, em nome do qual tudo isso é supostamente feito, não foi consultado, não foi ouvido, e não verá um centavo do espetáculo. Ele apenas pagará, como sempre paga, na forma de produtos mais caros, menos inovação e um mercado de mídia cada vez mais dependente das bênçãos do gabinete em vez do gosto do público.

Há uma confusão deliberada no ar entre o que é poder econômico e o que é poder político, e ela favorece quem confunde. Empresa grande, por maior que seja, depende do voto diário do consumidor, que pode trocá-la por outra amanhã. O político não. O político, uma vez no cargo, exige obediência sob pena de multa, processo ou prisão. A pergunta correta, portanto, nunca foi se a Paramount ficaria grande demais. A pergunta correta é por que aceitamos que um punhado de funcionários públicos com mandato temporário tenha o poder de aprovar, vetar ou condicionar o que adultos contratualmente capazes decidem fazer com seu próprio patrimônio.

O mais revelador é o silêncio sobre o ponto óbvio. Se a fusão for um mau negócio, o mercado pune, os acionistas perdem, e a empresa encolhe. Foi assim com fusões megalomaníacas em todas as décadas anteriores, todas elas aplaudidas no dia do anúncio e ridicularizadas cinco anos depois. O mercado tem memória e tem dente. O político tem apenas o microfone da audiência, e o usa para fingir que protege um consumidor que nunca pediu proteção, contra um perigo que ele mesmo não sabe descrever, em nome de um interesse público que coincide miraculosamente com o interesse do doador da próxima campanha.

No fim, a aquisição vai ou não vai acontecer, e o mundo do entretenimento seguirá girando. Mas a normalização do espetáculo, esse hábito de tratar como natural que parlamentares interroguem empresários sobre decisões que não lhes dizem respeito, é a verdadeira notícia. Cada audiência dessas é mais uma camada de tinta na pintura que cobre a porta da liberdade contratual, até o dia em que ninguém se lembre mais de que ela existia. E aí não haverá fusão para discutir, porque não haverá mais empresas livres o bastante para querer se fundir.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.