A notícia, se é que merece esse nome, vem estampada nas páginas digitais da Wired, aquela mesma publicação que nos anos noventa profetizava o nascimento de uma nova era civilizacional, com manifestos sobre ciberespaço, criptografia e a libertação do indivíduo pelas redes. Hoje, a herdeira espiritual daquele projeto dedica espaço editorial nobre para informar ao mundo que a loja Dermstore está oferecendo vinte e cinco por cento de desconto em produtos de skincare. Se isso não é o retrato perfeito de uma queda intelectual, eu não sei o que é.
Há algo de patético e ao mesmo tempo revelador nesse fenômeno. As grandes publicações de tecnologia, que deveriam estar cobrindo a corrida dos semicondutores, o avanço da computação quântica, a guerra silenciosa pelos minerais raros que sustentam a inteligência artificial, preferem virar vitrine de e-commerce travestida de jornalismo. O esquema é conhecido, chama-se marketing de afiliados, e funciona assim: a publicação coloca um link, o leitor clica, compra, e a redação fica com uma fatia. Jornalismo virou comissão de vendedor de porta em porta, só que com tipografia mais bonita.
O que se perdeu no caminho foi exatamente aquilo que justificava a existência de uma imprensa especializada. Quando os monges copistas medievais perderam o monopólio da escrita com a chegada da prensa, ao menos surgiu algo novo, livros, panfletos, a Reforma, a Revolução Científica. Quando a imprensa de tecnologia perde sua razão de ser, o que surge no lugar é cupom de hidratante facial. A comparação é cruel mas precisa, porque mostra que nem toda decadência produz renascimento, algumas produzem apenas mais decadência.
Vale seguir o dinheiro, como sempre. As publicações que outrora viviam de assinaturas e publicidade tradicional foram esmagadas pelo duopólio publicitário das grandes plataformas, aquelas mesmas que controlam o que aparece na sua busca e no seu feed. Sobrou migalha, e a migalha veio na forma de programas de afiliados administrados pelos próprios gigantes que primeiro destruíram o modelo de receita do jornalismo. A serpente devora a própria cauda, e o leitor é convidado a comprar shampoo enquanto assiste ao espetáculo.
O mais triste é perceber que a tecnologia de verdade, a que constrói, a que forja, a que move o mundo, segue acontecendo em silêncio nos laboratórios de Taiwan, nas fábricas de chip da Califórnia, nos repositórios abertos onde programadores anônimos escrevem o código que sustenta a internet inteira sem cobrar um centavo. Essa história ninguém conta, porque essa história não tem cupom de desconto associado. Cobrir uma fundição de wafers de três nanômetros dá trabalho, exige conhecimento técnico, não rende comissão. Anunciar promoção de creme rende.
Fica o aviso ao leitor brasileiro que ainda confia na imprensa internacional de tecnologia como bússola. A bússola virou catálogo, e o norte que ela aponta é o caixa registrador de uma loja de cosméticos. Quem quiser entender o que de fato está acontecendo na fronteira tecnológica vai ter que procurar em outro lugar, talvez nos blogs técnicos obscuros, nos papers acadêmicos, nas threads de engenheiros que ainda têm o pudor de não vender a alma por uma fração de venda. O resto é maquiagem, literalmente.
Com informações da Wired. A análise e opinião são do O Algoz.