Quase metade dos profissionais brasileiros está procurando emprego novo porque não confia mais no chefe, segundo levantamento divulgado esta semana. A manchete vem com cara de descoberta antropológica, como se o desencanto com o patrão fosse uma anomalia de 2026 e não a regra silenciosa de qualquer relação humana mediada por hierarquia frouxa, salário corroído e regras que mudam a cada coletiva do Ministério da Fazenda. Quer dizer, é preciso muita ingenuidade, ou muita má-fé editorial, para tratar como surpresa o fato de que o brasileiro médio, espremido entre a inflação que ninguém vê e a carga tributária que todo mundo finge não ver, esteja olhando torto para quem lhe entrega o contracheque.
Olha, antes de mirar no gerente intermediário, convém olhar para o andar de cima. A desconfiança que o trabalhador sente do chefe é, na maioria das vezes, o eco amortecido da desconfiança que ele sente do país. Quando o governo muda regra trabalhista de seis em seis meses, quando o custo de manter um funcionário formal vira ginástica contábil, quando o empresário acorda sem saber se amanhã vai ter de pagar uma nova contribuição inventada por algum iluminado de Brasília, a relação patrão e empregado azeda na origem. O chefe vira o mensageiro local de uma instabilidade que foi fabricada lá em cima, e o empregado o trata como tal. Mate o mensageiro, é mais fácil que enfrentar quem deu a ordem.
Tem ainda o detalhe que ninguém quer comentar em alto e bom som. A geração que entra hoje no mercado foi criada por duas décadas de discurso de que o trabalho é exploração, que o patrão é adversário, que a meritocracia é mito e que o sucesso alheio é prova de privilégio. Plantaram ressentimento por atacado, e agora estranham que a colheita venha em forma de rotatividade, baixo engajamento e desconfiança crônica. Não dá para envenenar o poço durante vinte anos nas universidades, nas redes e nos seriados, e depois fingir choque porque o trabalhador acha que o chefe está, por definição, contra ele.
Some a isso o fato concreto de que o salário real do brasileiro encolheu de forma silenciosa enquanto o governo comemorava "estabilidade". Aquele aumento de cinco por cento que o gerente conseguiu aprovar virou pó na conta do supermercado, e a culpa, claro, recai sobre quem assinou a folha, não sobre quem imprimiu o dinheiro que esvaziou o aumento. É a velha história da janela quebrada vestida com roupa de RH: enxerga-se o reajuste tímido, não se enxerga o confisco invisível que veio antes dele. O chefe vira vilão de uma peça em que ele é, no fundo, mais um figurante endividado.
E há, finalmente, o componente moral que a pesquisa não mediu porque nenhuma pesquisa de clima organizacional ousa medir. Confiança não se decreta em treinamento de liderança comprado por trinta mil reais da consultoria da moda. Confiança nasce de palavra cumprida, de combinado respeitado, de hierarquia exercida com responsabilidade e não com terapia. Substituímos chefe por coach, ordem por feedback, responsabilidade por escuta ativa, e o resultado é um ambiente onde ninguém sabe mais quem manda, quem responde e quem entrega. O trabalhador desconfia porque, no fundo, percebe que o chefe também não acredita no próprio papel.
A solução que vai ser vendida nos próximos meses é previsível: mais regulação, mais cota, mais cartilha de boas práticas, mais ouvidoria, mais imposto disfarçado de programa social corporativo. Tudo, menos a única coisa que reconstrói confiança de verdade, que é devolver ao patrão a liberdade de contratar e demitir sem medo, ao empregado a clareza de que o esforço é recompensado, e a ambos a certeza de que o dinheiro que ganharam hoje vai valer alguma coisa amanhã. Sem isso, pode trocar de chefe quantas vezes quiser. O próximo vai parecer ainda pior, porque o problema, no fim, nunca esteve só na sala da gerência.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.