Olha, é sempre a mesma encenação. Chega o fim de semana e os portais financeiros recauchutam aquele compilado sagrado das "recomendações dos analistas de Wall Street", como se houvesse, em algum arranha-céu da Park Avenue, um conselho de sábios desinteressados debruçado sobre planilhas em busca da verdade pura sobre o futuro dos preços. Não há. Há uma indústria bilionária de produção de narrativa cujo produto final não é a previsão correta, é o fluxo de ordens. Quando o relatório sai recomendando comprar a ação X, alguém já comprou X na véspera. Quando recomenda vender Y, alguém precisa que você venda Y para poder recolher na baixa. O resto é teatro.
O ponto que escapa ao leitor médio é estrutural. Esses bancos não vivem de acertar o palpite, vivem de comissão sobre giro, de taxa sobre custódia, de spread sobre execução, de fee sobre fusão e aquisição que eles mesmos sugerem aos clientes corporativos cujas ações eles cobrem. Quer dizer, o sujeito que escreve o relatório sobre a empresa A trabalha para o banco que está estruturando a emissão de dívida da empresa A, que assessora a fusão da empresa A com a B, e que vende derivativos para os fundos que negociam ações de A. Pedir imparcialidade nesse arranjo é pedir vegetarianismo ao açougueiro.
E há a parte invisível, aquela que nenhum compilado de fim de semana mostra. Para cada recomendação de compra que sobe nas manchetes, existe um pequeno investidor entrando na ponta errada da operação enquanto a mesa proprietária do banco já se posicionou. O ganho do insider é visível na bonificação anual; a perda do varejo é diluída em milhões de carteiras anônimas que nunca farão capa de jornal. É a velha alquimia: socializar o risco, privatizar o lucro, e ainda cobrar pela consultoria que produziu o prejuízo.
Soma-se a isso o cenário macro que ninguém quer encarar de frente. Os mesmos bancos que pedem corte de juros para inflar mais ativos são os credores que financiaram a farra fiscal das últimas duas décadas. O dinheiro impresso pelos bancos centrais para salvar esses balanços em 2008 e em 2020 não evaporou, está represado nos ativos cujos preços os analistas agora chamam de "fundamentos sólidos". Não há fundamento sólido em coisa alguma cujo preço depende de a impressora continuar ligada. Há bolha sustentada por narrativa, e narrativa é exatamente o que esses relatórios produzem industrialmente.
O brasileiro médio, que já apanha do câmbio, do imposto e do governo, ainda paga corretagem para executar a estratégia que um departamento de pesquisa em Nova Iorque desenhou pensando na liquidez de um fundo hedge em Connecticut. É como entrar num cassino onde a banca te oferece o manual de blackjack, te explica as regras com sorriso largo, e depois cobra entrada, bebida e taxa por hora de mesa. A casa não precisa trapacear, basta deixar você jogar tempo suficiente. A matemática faz o resto.
A lição prática é antiga e ninguém aprende. Se a informação chegou ao compilado de sexta, ela já não vale nada para quem a lê no domingo. Se todo mundo está comprando, alguém grande está vendendo para todo mundo. E se um banco te dá um conselho de graça, é porque você é o produto da operação, não o cliente. O resto é literatura para preencher caderno de economia e justificar o salário do redator que copia o release em inglês.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.