A manchete vendida como análise de bastidores diz o óbvio que circula em Washington há meses: Donald Trump e Kevin Warsh agora compartilham o mesmo barco, e se um afunda, afunda o outro junto. Warsh, ex-governador do Fed nos anos da crise de 2008, virou o queridinho da Casa Branca para suceder Jerome Powell, e o pacto é simples como qualquer arranjo entre poder político e poder monetário sempre foi: você me dá juros baixos, eu te dou o cargo mais cobiçado de Constitution Avenue. O resto é coreografia para a imprensa fingir que existe alguma muralha entre a política fiscal e a impressora de dólares.

Quer dizer, vamos parar de fingir surpresa. A independência do Banco Central sempre foi uma ficção institucional sustentada por homens de gravata que se reúnem em salas com paredes de mogno e fingem decidir taxas de juros com base em planilhas, quando na verdade decidem com base em quem os indicou e em quem indicará seu sucessor. Powell foi escolhido por Trump em 2017, traído por Trump em 2019, mantido por Biden em 2022, e agora descartado por Trump novamente em 2026. Me diz uma coisa: se o cargo muda conforme a maré eleitoral, onde exatamente está essa tal independência que os manuais de economia juram existir?

A trilha do dinheiro, como sempre, é o mapa do tesouro. Trump precisa de juros baixos porque a dívida americana ultrapassou os 36 trilhões e o custo do serviço dela já come mais que o orçamento militar. Warsh, por sua vez, precisa do cargo porque sua biografia política está parada desde 2011 e Wall Street acena com a presidência do Fed como o último degrau antes do panteão dos gestores de fundo bilionários. Os dois precisam um do outro com a mesma intensidade que um afogado precisa da boia, e o contribuinte americano vai pagar a conta dessa salvação mútua na forma de uma moeda corroída e ativos artificialmente inflados.

Olha, o roteiro é antigo e a plateia deveria conhecer de cor. Toda vez que um presidente em apuros econômicos consegue colocar seu homem no comando da política monetária, o resultado é o mesmo: expansão de crédito artificial, bolha de ativos, euforia eleitoral, e depois a ressaca que sempre cai no colo do sucessor. Foi assim com Arthur Burns servindo Nixon nos anos 70, foi assim com Greenspan acomodando Bush filho nos anos 2000, e será assim com Warsh servindo Trump nos próximos anos. A diferença é apenas o tamanho da conta final, que cresce a cada rodada porque a base monetária acumulada de décadas de manipulação não some, apenas se esconde até a próxima crise pedir socorro.

E aqui mora a ironia mais saborosa do arranjo: justamente os mesmos analistas que passaram quatro anos esperneando contra Trump por "ameaçar a democracia" e "atacar instituições" agora encolhem os ombros diante da captura explícita do Federal Reserve. Por que? Porque a captura do Fed por interesses políticos é tão antiga quanto o próprio Fed, fundado em 1913 num conluio entre banqueiros e políticos numa ilha da Geórgia que ninguém deveria nunca esquecer. A instituição nasceu suja, opera suja, e só fingia limpeza quando convinha aos donos do balcão. Trump apenas tirou a maquiagem da prostituta.

O que ninguém quer enxergar, ou pior, o que todo mundo enxerga e finge não enxergar, é que existe uma alternativa simples e brutalmente honesta a esse circo: acabar com o monopólio estatal da moeda. Deixar o ouro, o bitcoin, as moedas privadas e qualquer outro meio de troca concorrerem livremente sem que um comitê de doze pessoas em Washington decida o preço do dinheiro para 330 milhões de americanos e, por tabela, para o planeta inteiro. Enquanto essa coragem não chegar, vamos continuar assistindo ao mesmo teatro de marionetes, com nomes diferentes puxando os mesmos cordões e o mesmo coro de economistas certificados aplaudindo a peça como se fosse novidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.