A notícia chega seca, quase burocrática: a Dexco encerra as atividades de uma unidade de revestimentos cerâmicos em Santa Catarina. Tradução para quem entende português de gente real, e não português de release corporativo: mais um chão de fábrica que vira galpão vazio, mais um grupo de famílias que descobre na sexta-feira que segunda-feira já não existe, mais uma cidade do interior catarinense que perde o emprego que sustentava a padaria, o posto de gasolina e o salão de cabeleireiro da esquina. O que se vê é o comunicado da empresa. O que ninguém mostra é o resto, e o resto é tudo.

Porque revestimento cerâmico, convém lembrar, não é foguete espacial. É argila, forno, energia, logística e mão de obra. Um setor em que o Brasil, com a quantidade de matéria-prima que tem debaixo do pé, deveria ser potência exportadora dominante, esmagando concorrentes em qualquer prateleira do planeta. E no entanto, fecha fábrica. Por quê? Energia industrial precificada como se fosse champanhe francês, gás natural refém de monopólio estatal disfarçado de empresa, carga tributária que faz o produto sair da linha de montagem já carregando metade do preço final em imposto, e juros que tornam qualquer modernização de parque industrial um exercício de masoquismo financeiro. Some tudo isso e você não tem uma economia, tem um campo minado em que apenas o capital politicamente protegido sobrevive.

Repare na elegância perversa do arranjo. O sujeito que produz, contrata, paga décimo terceiro, recolhe ICMS, IPI, PIS, Cofins, INSS patronal, FGTS e ainda dorme à noite pensando em como pagar a folha do mês que vem, esse é tratado pelo Estado brasileiro como vaca leiteira de ordenha permanente. Já o intermediário financeiro que vive de arbitragem com título público, o lobista que mora em Brasília vendendo emendas, o burocrata que decide com caneta o que o mercado deveria decidir com preço, todos esses prosperam. A planilha de quem ganha e quem perde no Brasil contemporâneo não é segredo de Estado, está estampada todo dia nas demonstrações financeiras dos bancos contra as demonstrações financeiras das indústrias. Adivinhe quem sorri.

E o consumidor final, esse personagem ausente das discussões econômicas brasileiras, paga a conta duas vezes. Paga primeiro quando o produto nacional chega à loja com preço inflado pela tributação em cascata. Paga depois quando descobre que a alternativa importada, vinda de país com energia decente e tributo civilizado, também chega cara porque o protecionismo travestido de defesa da indústria nacional ergueu uma muralha tarifária que protege exatamente as ineficiências que matam essa mesma indústria. É o gato mordendo o próprio rabo enquanto ronrona orgulhoso de sua estratégia.

Ninguém em Brasília vai chorar pela fábrica fechada em Santa Catarina. Ninguém vai propor reduzir tributo, simplificar regulação, baratear energia, abrir o mercado de gás, desindexar a economia das vontades do Banco Central. O que virá, isso sim, será mais um programa de financiamento subsidiado para reativar setores em crise, com dinheiro tomado do contribuinte sobrevivente para socorrer o contribuinte falido, intermediado por banco público que cobra taxa de administração no caminho. A roda gira, a fábrica fecha, o release sai, a vida segue. Só que a vida não segue para quem perdeu o emprego, e essa é a parte que o noticiário econômico aprendeu a tratar como rodapé.

Cada chaminé que apaga no Brasil é um plebiscito silencioso contra o modelo. E o modelo, teimoso, continua achando que o problema é falta de mais Estado. Um país que pune quem produz e premia quem intermedia eventualmente fica sem o que intermediar. A Dexco em Santa Catarina é só o aviso desta semana. Os próximos virão, pontuais como cobrança de imposto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.