Madri amanheceu com o que o noticiário oficial gosta de chamar de manifestação, palavra higienizada para descrever o momento em que o povo cansa de fingir que acredita no governo. Dezenas de milhares de pessoas atravessaram o centro da capital exigindo a renúncia do primeiro-ministro, e o detalhe que a imprensa esconde entre adjetivos é que essa não é uma multidão pedindo mais Estado, é uma multidão pedindo menos governo. Há diferença, e ela é abissal.
Olha, todo regime que se equilibra na perna do gasto público chega cedo ou tarde nesse impasse. Promete-se prosperidade, distribui-se subsídio, contrata-se base eleitoral via folha de pagamento estatal, financia-se tudo com dívida e impressora, e quando a inflação corrói o salário do sujeito que acorda às cinco da manhã, o governo descobre, surpreso, que ninguém mais quer ouvir discurso sobre justiça social. A conta apareceu, e a conta é sempre paga por quem não foi convidado para a festa.
Quer dizer, observe a coreografia: um primeiro-ministro encurralado por escândalos que orbitam pessoas próximas, denúncias que se acumulam como louça suja no domingo, e ainda assim a resposta oficial é a velha cantilena de que a oposição é golpista, a imprensa é fascista e o povo nas ruas é manipulado. É o método. Quando o poder não consegue mais explicar o presente, ele criminaliza quem aponta o presente. Funcionou na América Latina inteira, está sendo testado de novo na península, e os roteiristas são preguiçosos demais para escrever falas novas.
Me diz uma coisa: alguém ainda lembra para onde foi o dinheiro dos pacotes emergenciais, dos programas habitacionais, das transições verdes que viraram orçamento aberto para amigos do rei? Sempre que se segue o rastro do euro, ele desemboca em fundação amiga, consultoria estratégica, ONG bem relacionada, contrato sem licitação adornado com a palavra mágica sustentabilidade. O cidadão paga imposto sobre o salário, imposto sobre o consumo, imposto sobre o combustível que leva o filho à escola pública que não funciona, e ainda escuta que precisa contribuir mais para que o governo continue cuidando dele. É confisco com aula de moral incluída.
O mais revelador, porém, não é a multidão. É o desprezo das elites bem-pensantes pela multidão. Editoriais já estão sendo preparados para classificar os manifestantes como ultradireita, saudosistas, ignorantes que não compreendem a complexidade dos desafios contemporâneos. É sempre assim quando o povo desobedece ao script: ou está sendo manipulado, ou é burro, ou é mau. Nunca, em hipótese alguma, está simplesmente certo. Admitir isso obrigaria a casta a olhar no espelho, e o espelho, coitado, já está cansado.
A lição que Madri oferece a quem quiser ver é antiga e dói por ser óbvia: nenhum governo dura para sempre quando confunde o tesouro público com caixa eleitoral e a lei com instrumento de pilhagem ordenada. O povo aceita muita coisa, aceita até ser enganado por um tempo, mas há um ponto em que a paciência azeda e vira passeata. A Espanha chegou nesse ponto. O Brasil, que copia tudo da Europa com dois anos de atraso, devia tomar nota antes que a próxima passeata seja na Avenida Paulista pelo mesmo motivo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.