A notícia saiu com aquele entusiasmo contábil de sempre: a Digital Realty Trust, gigante global de data centers, superou a previsão de receita no primeiro trimestre de 2026, e as manchetes trataram o resultado como prova definitiva de que a revolução da inteligência artificial é uma máquina imparável de gerar valor. Quer dizer, mais um REIT de infraestrutura pesada entrega números acima do consenso e a plateia aplaude de pé, sem perguntar o que exatamente está sendo medido, e, mais importante, o que não está sendo medido. Porque toda festa trimestral em Wall Street tem a mesma coreografia: celebra-se o que se vê, ignora-se religiosamente o que não se vê.

O que se vê é a receita crescendo, os contratos de locação de racks se empilhando, a demanda por capacidade computacional explodindo com a corrida da IA generativa. O que não se vê é que empresas como esta operam em cima de alavancagem pesadíssima, típica de REIT, e que cada megawatt instalado nos últimos anos foi financiado com dinheiro barato fabricado na impressora do Federal Reserve durante a década do dinheiro de graça. Agora que os juros subiram e permaneceram mais altos do que os modelos previam, a conta do rolamento dessa dívida começa a aparecer, e a maneira mais elegante de esconder isso é justamente emitir novas ações, novas dívidas, e comemorar cada trimestre como se o balanço patrimonial fosse detalhe secundário.

Olha, ninguém está dizendo que a demanda por data centers é falsa. Ela é real, é brutal, e provavelmente vai continuar. O problema é confundir demanda genuína com boom sustentável. Quando o crédito é abundante e artificialmente barato por tempo demais, capital flui para os setores mais intensivos em capital, e o sujeito que construiu galpão refrigerado com financiamento de dez anos a juro subsidiado vira gênio da gestão da noite para o dia. Quando a maré vira, descobre-se quem estava nadando pelado, e historicamente os primeiros a perder a roupa são justamente os que mais se alavancaram na fase eufórica. Não é novidade, é ciclo, e ciclo não é acidente climático, é consequência matemática de política monetária frouxa.

Me diz uma coisa, quem está realmente pagando a conta dessa infraestrutura toda? Boa parte dos clientes âncora de data centers hoje são big techs que, por sua vez, vivem de rodadas bilionárias de capital, de subsídios velados via incentivos fiscais estaduais, de contratos generosos com governos, e de uma bolha de expectativa em torno da IA que faz a bolha das pontocom de 1999 parecer investimento conservador. Siga o dinheiro e você verá que o contribuinte americano, via política fiscal expansionista, e o poupador do mundo inteiro, via repressão monetária sobre sua renda fixa, é quem subsidia essa festa. Lucro é privado, o risco sistêmico é socializado, e o analista de banco escreve relatório otimista usando o mesmo modelo de planilha do trimestre anterior.

Há ainda o componente regulatório que ninguém comenta em voz alta. Data centers consomem quantidades absurdas de energia, e em praticamente todas as jurisdições onde essas empresas operam existe um arranjo cozinhado entre operadoras, distribuidoras estatais ou semi-estatais, e governos ávidos por fotografia de inauguração. É o capitalismo de compadrio em sua versão tecnológica: empresário precisa do Estado para aprovar licença ambiental, garantir tarifa subsidiada, conceder terreno, e em troca o político ganha narrativa de inovação. Chama-se parceria público-privada, mas o público entra com o privilégio e o privado leva o lucro, e o cidadão médio paga a tarifa de energia mais cara no fim do mês sem entender por quê.

O próximo trimestre virá, os números provavelmente serão maquiados novamente dentro da margem do aceitável, e a turma do otimismo compulsório continuará vendendo a narrativa de que desta vez é diferente. Nunca é diferente. O que é real é a tecnologia, o que é fraude é a precificação, e quando a correção vier, quem estiver segurando as ações no topo vai descobrir que o único ativo verdadeiramente líquido em crise é o arrependimento.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.