Há uma cena que resume bem o estado da República brasileira em 2026: um ministro do Supremo Tribunal Federal, que até pouco tempo atrás ocupava uma cadeira no próprio Executivo que agora cobra, intima a Advocacia-Geral da União a apresentar, em quinze dias corridos, "manifestações objetivas" dos ministérios da Justiça, da Defesa, do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas sobre as medidas repressivas adotadas contra o crime organizado na Amazônia. Quer dizer, o guardião da Constituição está obrigando o governo a fazer aquilo que o governo prometeu fazer quando pediu voto. Isso não é fiscalização institucional. É atestado de incompetência com carimbo oficial.
O detalhe que a imprensa gentil prefere enterrar no décimo parágrafo é este: o próprio governo federal reconheceu, em documentos submetidos ao STF, a ausência de diagnóstico sobre o crime organizado na Amazônia. Três anos de gestão, bilhões em orçamento, discursos inflamados na COP de Dubai e na ONU, capas de revista internacional, e o Estado brasileiro não sabe ao certo quem controla o garimpo ilegal, quem financia a grilagem, quem armou as facções que pressionam comunidades indígenas. Não sabe. Ou faz de conta que não sabe, que é uma hipótese bem mais interessante de investigar.
Porque quando você segue o rastro do dinheiro na Amazônia, o mapa do crime não é nenhum mistério para quem queira enxergar. O garimpo ilegal movimenta fortunas, algumas estimativas chegam à casa dos bilhões de dólares ao ano, e esse dinheiro precisa de proteção política, de silêncio comprado, de fronteiras convenientes. As facções criminosas não dominam territórios do tamanho de países europeus por acaso ou por mérito próprio, elas dominam porque alguém, em alguma cadeira, assinou algo que não deveria ou deixou de assinar algo que deveria. A pergunta que um jornalismo honesto faria, com a teimosia de quem não larga o osso, é simples: quem se beneficia da omissão? A resposta costuma iluminar muito mais que qualquer nota oficial.
A morte de Bruno Pereira e Dom Phillips, citada pelo ministro na decisão como evidência de que providências adicionais se fazem necessárias, aconteceu em 2022. Já se passaram quase quatro anos. Nesse intervalo houve troca de governo, inauguração de novos ministérios, criação de conselhos participativos, eventos internacionais e cobertura fotográfica farta de lideranças abraçando indígenas. O que não houve, ao que tudo indica, foi suficiente presença do Estado onde a lei precisa existir de fato, não apenas no papel ou no discurso. Toda política pública tem dois preços: o que você vê, anunciado em coletiva de imprensa, e o que você não vê, que é o custo dos territórios entregues enquanto o governo estava ocupado produzindo relatórios sobre si mesmo.
Olha, o que mais perturba nessa história não é a violência em si, que é real e grave, nem a omissão governamental, que é crônica e esperada. O que perturba é a arquitetura da cena. Um juiz cobra um governo. O governo pede prazo. O prazo vira extensão. A extensão vira relatório. O relatório vira convocação. A convocação vira audiência. A audiência vira nota de esclarecimento. E a floresta continua ardendo, as famílias continuam sendo expulsas, as facções continuam expandindo território, e todos os atores desta peça de teatro burocrático dormem com a consciência tranquila porque cumpriram seu papel formal. A burocracia é perfeita nisso: ela substitui a solução pelo processo, e o processo nunca termina, porque se terminasse, não haveria mais justificativa para a burocracia.
A Amazônia não precisa de mais quinze dias de prazo para manifestação objetiva. Ela precisa do que toda propriedade e toda comunidade precisam quando ameaçadas: presença real, lei aplicada com seriedade e responsabilização de quem falhou. Em vez disso, o Brasil de 2026 oferece um ministro do Supremo mandando ofício para a AGU, que mandará ofício para os ministérios, que produzirão documentos, que serão protocolados, que serão analisados, que gerarão novas determinações. O crime organizado, este sim, não tem prazo de quinze dias. Ele trabalha todos os dias, com método, com hierarquia e, ao que tudo indica, sem maiores preocupações com o calendário do STF.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.