Mil setecentos e noventa e oito dólares. Repita devagar: mil setecentos e noventa e oito dólares. É o valor que um diretor científico da Genelux embolsou ao se desfazer de algumas ações ordinárias, e é também o valor que a imprensa especializada decidiu que merecia manchete com nome, sobrenome e cargo. Para efeito de comparação, o Federal Reserve injetou, nos últimos anos, algo na casa dos trilhões em expansão monetária sem que nenhum repórter tivesse a coragem de nomear o burocrata responsável pela operação. A régua é seletiva, e quem segura a régua sabe muito bem para onde apontar.
Quer dizer, vamos colocar a coisa em escala. Um executivo de uma empresa de biotecnologia vende um lote irrisório de papéis, possivelmente para pagar imposto, possivelmente para fazer uma reforma na cozinha, possivelmente porque o filho entrou na faculdade. E isso, num mercado supostamente livre, é problema de quem exatamente? Da SEC, que precisa do registro? Tudo bem, é regra do jogo. Mas a transformação de uma operação banal em sinal de mercado revela menos sobre a empresa e mais sobre a infantilização do investidor moderno, que precisa de alguém lendo a Bíblia financeira para ele todas as manhãs.
O que ninguém vê, porque ninguém quer ver, é o outro lado da mesa. Enquanto o noticiário se debruça sobre cada movimento microscópico de insiders em empresas de capital aberto, fundos de pensão estatais, bancos centrais e tesouros nacionais movimentam quantias capazes de redesenhar continentes inteiros sem que ninguém peça registro, transparência ou justificativa. O cidadão que comprou uma ação da Genelux por curiosidade tem mais obrigações de disclosure do que o ministro que decide o destino de bilhões em subsídios para amigos do regime. Isto não é capitalismo; é teatro regulatório.
Olha, há uma lógica perversa por trás disso. Quanto mais ruído se faz em torno de movimentações irrelevantes, mais o pequeno investidor é treinado a desconfiar do mercado e a confiar no Estado como árbitro neutro. Só que o árbitro neutro não existe; existe o árbitro que cobra ingresso, vende camiseta dos dois times e ainda determina quem vence no tapetão. A captura regulatória não precisa de mil dólares para acontecer. Precisa de um lobista, um almoço caro e um projeto de lei mal redigido. Esses não viram manchete.
Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta quanto a diretoria do banco central de qualquer país do G7 possui em ativos no momento em que define a taxa básica de juros? Por que ninguém quantifica o ganho indireto que membros de comitês de política monetária obtêm quando antecipam decisões que eles mesmos vão tomar dali a quarenta e oito horas? A resposta é simples e desconfortável. O privado precisa abrir as calças; o público se cobre com a toga da boa intenção. E assim o jornalismo financeiro contemporâneo segue produzindo notícias que confundem ruído com sinal, distração com fiscalização.
No fim, a verdadeira história aqui não é a venda. É a fabricação da história. Um homem vendeu algo que era dele, registrou conforme a lei manda, e virou personagem de um drama que ele não pediu para protagonizar. Enquanto isso, a inflação corrói o salário de quem nunca ouviu falar em Genelux, e essa erosão silenciosa, essa sim verdadeiramente bilionária, não rende manchete porque não tem culpado com nome e CPF. O ladrão de gravata sempre escapa quando o holofote está apontado para quem trocou meia dúzia de papéis.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.