Um diretor da 10x Genomics, empresa de biotecnologia que virou queridinha do capital de risco durante a farra pandêmica, se desfez de aproximadamente 1,2 milhão de dólares em ações da própria companhia. O comunicado veio embrulhado naquela prosa jurídica que os departamentos de compliance adoram, cheio de "plano pré-estabelecido", "operação de rotina", "sem relação com perspectivas futuras". Traduzindo do corporativês para o português dos mortais, quem estava sentado na mesa da diretoria olhou para o preço da ação, olhou para o horizonte da empresa, e decidiu que era hora de trocar papel por dinheiro vivo. Curioso como essas coincidências acontecem sempre com quem tem acesso aos números antes de qualquer analista de banco.
Existe uma piada antiga no mercado financeiro, dessas que só circulam entre quem já viu o filme rodar algumas vezes, segundo a qual insider vendendo é como bombeiro correndo para fora do prédio. Pode ser só um exercício de rotina, pode ser almoço marcado, pode ser mil coisas inofensivas. Mas se for você que está lá dentro assistindo televisão, convém prestar atenção. A regulamentação americana obriga esses executivos a declararem suas movimentações justamente porque, historicamente, o pessoal do andar de cima sempre soube coisas que o acionista minoritário só descobre depois do prejuízo consumado.
A 10x Genomics é uma daquelas histórias clássicas de bolha temática. Sequenciamento de célula única, análise espacial de tecidos, promessas de revolucionar a medicina personalizada, tudo empacotado com aquele verniz científico que faz gestor de fundo abrir o talão de cheques sem ler o balanço. Durante o período de dinheiro grátis, quando o banco central americano imprimia trilhões e enfiava taxa de juros no chão, ações do setor voaram para valuations que teriam feito qualquer analista sóbrio dos anos noventa cair para trás. Agora que o custo do dinheiro voltou para o mundo real, os múltiplos precisam justificar receita, e receita precisa vir de cliente pagante, não de narrativa em conference call.
Aqui entra o truque que ninguém quer nomear em voz alta. Toda a arquitetura do mercado de capitais moderno foi desenhada para transferir risco do sujeito informado para o poupador anônimo. O executivo vende no topo usando informação que ele tem por dever de ofício, o fundo de pensão do trabalhador comum compra no meio do caminho porque o gestor precisa entregar performance no trimestre, e quando o preço desaba, ninguém é culpado de nada porque todos seguiram procedimento. É a socialização do prejuízo em versão sofisticada, sem panfleto, sem passeata, apenas com formulário eletrônico enviado à comissão de valores mobiliários dentro do prazo regulamentar.
O que torna o episódio ainda mais revelador é a naturalidade com que a imprensa financeira reporta a operação como se fosse previsão do tempo. Um milhão e duzentos mil dólares saindo da posição de quem senta na diretoria vira nota de rodapé, item de agenda, curiosidade estatística. Ninguém pergunta o óbvio, que é por que raios um homem que supostamente acredita no futuro brilhante da própria companhia prefere ter dinheiro na conta corrente a ter mais ações no portfólio. A resposta honesta desmontaria três décadas de propaganda sobre alinhamento de interesses entre gestão e acionista, então melhor não perguntar.
A lição que fica, para quem tem olhos de ver, é que o mercado de ações continua sendo o único cassino do mundo onde o dono da mesa também joga contra o cliente e ainda recebe salário para isso. Quando a impressora de dinheiro parar de vez, e ela vai parar porque toda festa termina, a conta dessa engenharia toda vai chegar. E vai chegar, como sempre, endereçada ao sujeito que nunca teve informação privilegiada nenhuma, apenas a fé ingênua de que o sistema era justo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.