Um diretor da Accel Entertainment acabou de assinar um cheque de quinhentos e setenta e sete mil e quinhentos dólares para comprar ações da própria empresa. Não é stock option, não é bônus, não é prêmio de performance pago pelo acionista. É dinheiro vivo, do bolso, convertido em risco. E essa frase, simples como ela é, deveria estar emoldurada na parede de toda escola de negócios que hoje forma os MBAs que administram empresa alheia como quem dirige carro alugado.

Olha, o capitalismo de verdade, aquele que produziu mais riqueza em duzentos anos do que toda a história anterior da humanidade junta, sempre funcionou com base num princípio singelo: quem decide, paga. Quem aposta, perde. Quem acerta, ganha. O empresário que pendura tudo o que tem na vitrine assume um tipo de responsabilidade que nenhum executivo profissional consegue replicar, porque o executivo profissional faz aposta com ficha dos outros. Se der certo, ele leva bônus. Se der errado, abre o paraquedas dourado e cai em outra cadeira igual no andar de cima. Insider buying é o último vestígio de um capitalismo onde a coragem ainda custava alguma coisa.

Me diz uma coisa: por que ninguém na imprensa econômica brasileira gasta uma linha quando um diretor mete meio milhão na própria empresa, mas dedica caderno inteiro quando o BNDES "investe" bilhões em campeão nacional? Porque uma é notícia de mercado e a outra é peça de propaganda. Quando o sujeito arrisca o que é dele, a aposta diz alguma coisa sobre a empresa. Quando o burocrata arrisca o que é seu, dos seus filhos, dos seus netos e dos meus, a aposta só diz alguma coisa sobre o tamanho do lobby que o convenceu. Siga o dinheiro e você sabe quem manda.

A Accel, vale lembrar, opera no segmento de máquinas de jogo distribuído nos Estados Unidos, atividade que num país civilizado funciona como qualquer outra: paga imposto, atende cliente adulto, sustenta empregado e responde por contrato. Num país tropical aqui de baixo, isso viraria caso de polícia, comissão parlamentar de inquérito, marcha de pastor e três anos de proibição até que algum compadre do palácio descubra que pode taxar o setor em sessenta por cento e liberar tudo com a mesma cara séria. A diferença entre os dois modelos não está na moralidade, está na captura. Lá o mercado regula, aqui o regulador mercadeja.

E o detalhe mais cruel da história é o seguinte: enquanto esse diretor compra ações com cheque nominal, o investidor brasileiro médio, aquele que tem CDB de banco grande e fundo multimercado de plataforma, está vendo seu poder de compra ser corroído mês após mês por uma moeda que governo nenhum se compromete a defender, juros que sobem para tapar buraco fiscal cavado pelo próprio governo, e regulação que muda conforme o humor do ministro da vez. Não é difícil entender por que tanto brasileiro com poupança decente está mandando dólar para fora. Não é falta de patriotismo, é instinto de sobrevivência financeira.

O recado que fica é antigo e nunca envelhece: confie no sujeito que põe o próprio dinheiro onde está a própria boca, desconfie de quem promete o paraíso usando o cartão de crédito do contribuinte. O mercado livre tem mil defeitos, mas tem uma virtude que nenhum sistema planejado conseguiu imitar até hoje. Ele obriga o decisor a sangrar quando erra. Tira essa regra e você não tem mais capitalismo, tem caça-níquel institucional. Com a diferença de que o caça-níquel da Accel, ao menos, avisa quanto está a aposta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.