Quarenta e nove mil, trezentos e vinte e dois dólares. É o valor que Stephen Page, diretor da AeroVironment, fabricante americana de drones militares queridinha do complexo industrial bélico, achou por bem tirar da mesa vendendo ações da empresa que ajuda a comandar. Não é uma fortuna que compre um iate, concordo. Mas não é o tamanho do cheque que importa, é a direção do fluxo. Quando quem assina os relatórios internos vende, e quem lê os relatórios públicos compra, existe uma assimetria de informação que nenhum comunicado oficial consegue disfarçar.
Olha, a lógica é banal e por isso mesmo ninguém quer enxergar. Executivos recebem parte do salário em ações exatamente para alinhar incentivos, para que eles pensem como acionistas de longo prazo. Quando um diretor começa a converter papel em dinheiro vivo, ele está fazendo o movimento oposto do que o discurso corporativo prega. Está dizendo, em linguagem de fluxo de caixa, que prefere ter dólares na conta a ter promessas no balanço. E ele sabe algo que você não sabe, simplesmente porque está dentro da sala onde as projeções nascem antes de serem polidas para o comunicado ao mercado.
Me diz uma coisa: você acha mesmo que uma empresa que vive de contratos do Pentágono, que depende do humor fiscal de um governo americano quebrado e de guerras que podem terminar com um telefonema, é o porto seguro que vendem nas corretoras? O setor de defesa é o exemplo mais puro de capitalismo de compadrio que a história recente produziu. Não existe cliente, existe um único comprador monopsonista que decide preços por decreto, escolhe fornecedores por relação política e paga com dinheiro que toma emprestado ou imprime. É um mercado, mas é um mercado de fantasia, sustentado por orçamentos que ninguém jamais equilibra.
E aqui entra o que não se vê. Cada drone vendido ao Pentágono é financiado por imposto que sai do bolso do americano médio ou por dívida que será paga pelo filho dele. O lucro da AeroVironment aparece no balanço, os dividendos pingam na conta do acionista, mas o custo real está pulverizado em bilhões de contribuintes que nunca votaram naquele contrato específico. A janela do vizinho foi quebrada para que a fábrica de vidro prosperasse, e chamam isso de geração de riqueza. Não é. É transferência. É o Estado pegando de muitos para dar a poucos, e o pouco que sobra para o executivo ele já está, prudentemente, convertendo em caixa.
O sujeito que está dentro da empresa tem acesso ao pipeline de contratos, às margens reais, aos atrasos de entrega, às pendências regulatórias e ao humor do conselho. Quando ele vende, não é por acaso, e raramente é só para pagar imposto ou comprar casa de praia, como os comunicados gostam de sugerir. É porque a curva de risco e retorno que ele enxerga não bate com a curva que o relatório público mostra. O pequeno investidor continua acreditando que drone é o futuro, que defesa é resiliente, que dividendo é sagrado. Enquanto isso, quem está no comando vai retirando as fichas da mesa, uma lasca de cada vez, elegantemente, dentro das janelas permitidas pela SEC.
A moral da história é velha como o mundo e simples como um silogismo. Se você quer saber o que uma empresa vale de verdade, não olhe o press release, olhe o formulário 4 que os executivos são obrigados a preencher. Compare o que eles dizem nas entrevistas com o que eles fazem nas corretoras. As palavras são de graça, a venda de ações custa capital gains. E quando os dois se contradizem, confie na venda, não no discurso. O mercado financeiro é o único lugar do mundo onde as pessoas ainda preferem ler a ementa do que observar o garçom comendo na cozinha antes de trazer o prato.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.