S. Atiq Raza, diretor da Arteris, se desfez de algo como US$ 2,58 milhões em ações da própria companhia. Não foi erro de digitação, não foi rebalanceamento de portfólio, não foi diversificação patrimonial e não foi nada do vocabulário higienizado que as assessorias de imprensa despejam no comunicado oficial. Foi venda. Em dinheiro vivo. Por alguém que se senta na mesa onde as decisões são tomadas, lê os relatórios antes do mercado e sabe, com precisão cirúrgica, qual é o estado real da empresa que ele dirige.

O detalhe que o noticiário financeiro brasileiro insiste em tratar como rotina burocrática é justamente o que mais importa. Existe uma assimetria de informação obscena entre quem está dentro e quem está fora, e nenhum disclaimer regulatório, nenhum formulário 4 da SEC, nenhum fato relevante na CVM consegue corrigir esse desequilíbrio. O insider vende quando acha que vai cair, compra quando acha que vai subir, e o investidor de varejo, esse personagem mítico que a imprensa econômica adora chamar de "mercado", fica do outro lado da mesa apostando contra quem tem as cartas marcadas.

Veja o que se vê e veja o que não se vê. O que se vê é a manchete asséptica, o número redondo, a nota de rodapé regulatória cumprida. O que não se vê é o ecossistema inteiro de incentivos que faz com que executivos sejam pagos em ações justamente para "alinhar interesses com o acionista", e depois usem esse mesmo instrumento para descolar seus interesses do acionista no exato momento em que cheira problema. O alinhamento dura até o pregão da venda. Depois disso, cada um por si.

E aqui entra a parte que ninguém na CNBC brasileira quer comentar em voz alta. Concessionárias de rodovia não são empresas de tecnologia, não vivem de inovação disruptiva, não dependem de genialidade gerencial. Vivem de contrato com o poder público, de reajuste tarifário negociado em gabinete, de aditivo de prazo, de equilíbrio econômico-financeiro renegociado quando o vento muda. Quando um diretor desse tipo de empresa vende posição relevante, ele não está te dizendo nada sobre asfalto, está te dizendo algo sobre Brasília, sobre agência reguladora, sobre o próximo ciclo eleitoral, sobre algum bilhete azul que ainda não chegou ao mercado.

O pequeno investidor brasileiro, esse herói trágico que entra na bolsa convencido pelo influencer de plantão de que vai ficar rico comprando blue chip e segurando para sempre, deveria ter na parede de casa uma regra simples e dolorosa. Quando o capitão pula do navio com colete salva-vidas, não pergunte se a viagem continua. Pergunte por que o colete dele coube tão bem e por que ninguém ofereceu um igual para você. Os incentivos não mentem, os relatórios trimestrais sim.

O capitalismo de verdade exige que perdas sejam tão privadas quanto os lucros, que riscos sejam corridos por quem decide e não terceirizados para o cotista distraído, que a informação flua de forma simétrica ou pelo menos que o mercado tenha o decoro de admitir que ela não flui. O que temos no Brasil é um arranjo em que o executivo monetiza a posição na hora certa, a empresa segue seu rumo regulado, o regulador segue seu rumo capturado, e a conta fica sempre, invariavelmente, com o mesmo otário de sempre. Não é mercado livre, é teatro com bilheteria fixa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.