O fato é nu e cru. Um diretor da Axcelis Technologies, fabricante americana de equipamentos para a indústria de semicondutores, vendeu trezentos e vinte e oito mil dólares em ações da companhia onde trabalha. A operação está nos formulários da SEC, devidamente carimbada, dentro de janelas regulatórias, com toda a papelada que a burocracia exige para fingir que o jogo é limpo. E é justamente aí que mora o problema, porque o jogo nunca foi limpo, ele apenas foi documentado.
Quem vende ações da própria empresa sabe algo que o mercado ainda não sabe. Pode ser uma queda de demanda no próximo trimestre, pode ser um cliente importante segurando pedidos, pode ser apenas a sensação de que o ciclo dos semicondutores chegou ao topo da montanha russa. O ponto é que o sujeito sentado dentro da sala de reunião enxerga o que o aposentado de Iowa, segurando suas duzentas ações via fundo mútuo, jamais enxergará. E essa é a definição de informação assimétrica, aquilo que toda a teoria regulatória promete eliminar há décadas e nunca eliminou, porque é fisicamente impossível eliminar.
Veja a comédia da regulação moderna. O sujeito tem que avisar que vendeu, mas só depois de vender. Tem que registrar a operação, mas o registro chega ao público com atraso suficiente para que o movimento já tenha sido digerido pelos algoritmos dos grandes fundos, que pagam fortunas para receber esses dados em milissegundos. O pequeno investidor, esse ente mítico que a CVM e a SEC juram proteger, recebe a notícia formatada em coluna de jornal, três dias depois, quando o preço já se ajustou e a janela de oportunidade fechou. A regulação não democratiza informação, ela cria uma hierarquia oficial de quem tem acesso primeiro, segundo e por último.
Aqui entra o ponto que ninguém quer encarar. Vendas de insiders são previsíveis em mercados de tecnologia cíclica, e a Axcelis vive de vender máquinas para a indústria de chips, que por sua vez vive das oscilações brutais de demanda chinesa, americana e taiwanesa. Quando o executivo embolsa, ele não está cometendo crime, está fazendo gestão racional de patrimônio diante de uma indústria que sobe e desce como elevador quebrado. O que deveria escandalizar não é a venda em si, é o fato de o sistema regulatório criar a ilusão de que existe transparência total quando o que existe é uma transparência burocrática, lenta, formatada para benefício de quem já está dentro do clube.
E enquanto isso seguimos repetindo o mantra de que o mercado de capitais americano é o mais bem regulado do mundo, o mais transparente, o mais protetor do pequeno investidor. É verdade no papel. Na prática, é apenas o mais bem documentado dos jogos de cartas marcadas, onde o dealer mostra o baralho depois de embaralhar, depois de distribuir, depois de o vencedor já ter levado as fichas. Trezentos e vinte e oito mil dólares para o diretor, três dias de atraso para o sujeito da poupança. Quem ainda acredita que isso é capitalismo de livre mercado precisa rever conceitos básicos, porque capitalismo de verdade dispensa essa coreografia toda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.