Um diretor da CoreWeave, a empresa que virou queridinha de Wall Street por surfar a onda da inteligência artificial, acaba de despejar US$ 106,3 milhões em ações da própria companhia. Cento e seis milhões de dólares. Em ações que ele mesmo diz, em conferências e relatórios, valerem muito mais no futuro. Quer dizer, valem muito no futuro para você comprar, não para ele segurar. Existe uma palavra antiga para esse tipo de gesto, e ela não é "diversificação patrimonial".
Olha, todo executivo tem o direito de vender ações. Ninguém está falando em crime. O que está em jogo é a leitura do gesto. Quando o sujeito que assina os relatórios, que conhece os contratos de verdade, que sabe exatamente quanto a empresa deve aos bancos e a quem ela aluga aquelas GPUs caríssimas, quando esse sujeito transforma papel em dinheiro vivo na boca do caixa, ele está dizendo algo que nenhum comunicado oficial vai dizer. Está dizendo que prefere o dinheiro agora ao papel depois. E isso, num setor que se vende como o futuro inevitável da humanidade, é uma confissão.
A CoreWeave é o caso de manual da euforia atual. Empresa que aluga capacidade de processamento para treinar modelos de inteligência artificial, endividada até o pescoço para comprar chips da Nvidia, que por sua vez é acionista da CoreWeave, que por sua vez tem como principal cliente a Microsoft, que por sua vez investe na OpenAI, que por sua vez compra processamento da CoreWeave. Um carrossel de faturas circulares onde todo mundo vende para todo mundo e o resultado consolidado, vejam só, é sempre um número estupendo. Já vimos esse filme. Tinha pontocom no nome, lá em 1999. Os caras de dentro também venderam antes.
Siga o dinheiro e o desenho aparece. O pequeno investidor compra a ação acreditando no discurso de revolução tecnológica. O fundo de pensão entra porque o gestor precisa mostrar exposição ao tema da moda. O analista de banco recomenda compra porque o banco coordenou o IPO e ainda quer mandato para a próxima emissão. E no meio desse coro afinado, o executivo, que conhece o jogo por dentro, descarrega cem milhões e vai dormir tranquilo. Quem fica segurando a batata quente é sempre o mesmo: o sujeito que confiou na narrativa.
O ponto não é se a inteligência artificial é real. Ela é. O ponto é que a precificação atual dessas empresas pressupõe um futuro tão glorioso, tão livre de concorrência, tão isento de margem decrescente, que basta um soluço para a conta não fechar. E quem está dentro sabe que a conta é apertada. Por isso vende. Não venderia se acreditasse no preço. Ninguém abre mão de cem milhões em algo que vai virar quinhentos no ano que vem. Ação que sobe, executivo segura. Ação que está cara, executivo distribui aos otários.
O que se vê é o anúncio bombástico, a manchete sobre o novo unicórnio, o ministro tirando foto com o CEO. O que não se vê é o formulário discreto enviado ao regulador às seis da tarde de sexta-feira informando a venda. E é justamente nesse formulário, e não no palco da feira de tecnologia, que mora a verdade sobre quanto vale realmente o brinquedo. Quando os donos do barco começam a baixar os botes salva-vidas com calma e educação, o passageiro esperto não pergunta o motivo. Faz fila atrás.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.