Um diretor da Farmers & Merchants Bancorp acaba de vender duzentos e quarenta e oito mil dólares em ações da própria companhia, e o investidor médio, aquele coitado que acompanha o ticker pelo aplicativo do banco entre um café e outro, descobre o fato horas depois, quando já não há mais nada a fazer. A operação é legal, registrada, declarada, tudo conforme manda o compêndio regulatório. E é justamente aí que mora a piada. A legalidade do gesto não desfaz o que ele significa, e o significado é simples, brutal e antigo como a própria bolsa: quem está dentro sabe de algo que quem está fora não sabe, e age primeiro.

Olha, ninguém vende um quarto de milhão de dólares em ações da empresa em que ocupa cadeira de diretor por motivos triviais. Pode ser planejamento sucessório, pode ser diversificação, pode ser a piscina nova da casa de praia. Pode ser também, e a história financeira está cheirando esse tipo de "pode ser" há um século, a sensação fina e silenciosa de que o céu lá em cima começou a fechar. O ponto é que o sujeito não precisa explicar, e o pequeno acionista não tem direito de perguntar. O contrato implícito do mercado regulado pressupõe simetria de informação, e a vida real demonstra, com a paciência de uma planilha trimestral, que essa simetria é fantasia jurídica.

Quer dizer, o sistema financeiro moderno vendeu para o público a ideia de que comprar ação de banco regional americano é coisa de pai de família prudente, investimento conservador, dividendo previsível, balanço sólido. Aí o diretor faz caixa, o relatório sai uma linha discreta no formulário da SEC, e o aplicativo do investidor doméstico continua sugerindo aporte mensal automático. O capitalismo de balcão, aquele em que cada parte assume seu risco olhando o outro nos olhos, foi substituído pelo capitalismo de prospecto, em que o risco real está escondido em letra miúda que ninguém lê e em movimentos internos que ninguém vê em tempo útil.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais didática. Bancos regionais americanos vivem do diferencial entre o que pagam ao depositante e o que cobram do tomador, e esse diferencial depende inteiramente das decisões da autoridade monetária, que muda de humor com a frequência de um adolescente. Quem está na sala de reunião do conselho conhece a exposição da carteira de empréstimos, o estoque de títulos comprado no auge dos juros zero, o tamanho do rombo não realizado dormindo no balanço à espera de uma marcação a mercado mais sincera. O acionista lá fora conhece o slogan. Não é à toa que o insider vende primeiro; ele simplesmente está lendo o mesmo livro, só que algumas páginas adiante.

E não venham com a conversa de que a regulação resolve. A regulação criou o teatro, definiu o palco, vendeu os ingressos e ainda cobrou pelo programa. Cada nova camada de exigência prudencial produz exatamente dois efeitos, sempre os mesmos: aumenta o custo de existir para o banco pequeno, que some, e blinda o banco grande, que vira oligopólio protegido. O resultado é um mercado onde a venda de ações pelo diretor de um banco médio é nota de rodapé, enquanto o colapso do próximo gigante "sistêmico" será resgatado com dinheiro do contribuinte que nem ação tinha. O pequeno paga duas vezes: uma quando perde como acionista mal informado, outra quando perde como pagador de imposto convocado para o socorro.

Me diz uma coisa, qual é a lição que o investidor de carne e osso deveria tirar disso tudo. Não é demonizar o diretor que vendeu, ele agiu dentro da lei e em proveito próprio, como qualquer um faria. A lição é desconfiar do arranjo inteiro, do mito de que a poupança individual está segura quando entregue a uma engrenagem que recompensa a informação privilegiada e socializa a perda pública. Quando o homem de dentro vende, o homem de fora deveria, no mínimo, parar de comprar no piloto automático. O resto é fé, e fé em balanço de banco já custou caro demais à humanidade para continuar saindo de graça.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.