O fato é simples e, por isso mesmo, incômodo. Um diretor da Ichor Holdings, fabricante de subsistemas para a indústria de semicondutores, embolsou cerca de US$ 715 mil ao se desfazer de um pacote de ações da própria companhia. A nota saiu na imprensa financeira no tom habitual, aquele tom higienizado em que tudo é "rebalanceamento de portfólio", "planejamento tributário", "diversificação patrimonial". Quer dizer, todo mundo finge que não está vendo o óbvio: quem conhece o livro-caixa por dentro está reduzindo exposição enquanto o varejo continua olhando para o gráfico bonito.

Olha, existe uma assimetria de informação que nenhuma regulação de compliance jamais vai resolver, e ela é a coisa mais antiga do capitalismo financeiro. O sujeito que assina os relatórios trimestrais sabe o que está nos rascunhos antes de virar fato gerador de oscilação. O investidor pulverizado, esse só sabe o que a assessoria de imprensa quer que ele saiba, com o atraso conveniente de algumas semanas. Quando o de dentro vende e o de fora compra, há um nome técnico para o que está acontecendo, e não é "eficiência de mercado".

O setor de semicondutores, vale lembrar, virou o queridinho dos últimos três anos por uma razão que tem pouco a ver com fundamentos e muito a ver com a impressora. Trilhões de dólares despejados em estímulo durante a pandemia, somados a subsídios industriais americanos sob o rótulo simpático de "CHIPS Act", inflaram avaliações de empresas inteiras a múltiplos que só fazem sentido num mundo onde o juro real é negativo e a liquidez é eterna. Esse mundo acabou. O custo do capital voltou, a euforia esfriou, e os executivos que viveram a festa de perto sabem que a ressaca chega antes para quem dorme tarde.

Siga o dinheiro e o roteiro fica claro. Não é coincidência que vendas de insiders nesse segmento tenham crescido nos últimos meses. O ciclo da indústria de chips é brutalmente cíclico, depende de capex de gigantes asiáticas que travam ordens quando enxergam excesso de capacidade, e a Ichor é exatamente o tipo de fornecedor que sente o tranco antes do consumidor final perceber que algo mudou. Quando o diretor vende, ele não está fazendo profecia, está lendo o pedido que entrou e o pedido que não entrou.

O detalhe filosófico, porque sempre tem um, é que o investidor médio brasileiro segue acreditando que ETF de tecnologia americana é renda fixa com sotaque. Compra na alta, segura na queda, vende no fundo, e chama isso de "longo prazo". Enquanto isso, a engrenagem real do mercado opera em outra camada, na qual quem tem informação privilegiada cumpre os ritos legais de divulgação tardia e sai pela porta dos fundos com o cheque no bolso. A regulação não impede, apenas documenta.

Me diz uma coisa, em que outro arranjo humano alguém anuncia publicamente que está saindo de um barco e o restante da tripulação aplaude e compra a passagem que sobrou? Só no mercado de capitais, porque no mercado de capitais a fé substituiu a contabilidade faz tempo. Setecentos e quinze mil dólares não derrubam ação nenhuma, mas dizem tudo sobre o que pensa quem assina o balanço. O resto é narrativa para entreter o otário.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.