David Singer, diretor da Infleqtion, despachou cerca de US$ 47,6 milhões em ações da própria empresa. Não foi uma venda discreta de quem precisa pagar a fatura do cartão; foi um desembarque planejado, daqueles que se faz quando o navio ainda parece imponente no porto mas o capitão já sente a quilha rangendo. E note bem, a empresa está no setor mais hypado do momento, computação quântica, a tal tecnologia que vai resolver tudo, do câncer ao trânsito de São Paulo, segundo os mesmos analistas que há cinco anos juravam que o metaverso ia substituir o escritório.

Olha, existe uma regra que nenhum manual de Faria Lima ensina, mas que qualquer comerciante de feira entende em dez minutos. Quando o dono do negócio vende o estoque, ele sabe de algo que o cliente não sabe. Pode ser que saiba que o produto vai estragar, pode ser que saiba que o concorrente está chegando com preço menor, pode ser que tenha simplesmente cansado de fingir entusiasmo. O ponto é que insider não vende quarenta e sete milhões porque acordou inspirado a diversificar carteira. Insider vende porque está olhando uma planilha que você não vê e fazendo contas que você não faz.

O setor de computação quântica vive hoje aquilo que se viu nas pontocom em mil novecentos e noventa e nove, nas criptomoedas em dois mil e vinte e um, na biotech em dois mil e vinte. Empresas que não geram lucro, queimam caixa em ritmo industrial, vivem de promessa futura e são avaliadas como se já tivessem resolvido o problema que dizem que vão resolver. Enquanto o varejista coloca a poupança em fração de ação prometendo virar milionário, o executivo realiza ganho real, em dólar, na conta dele, e vai dormir tranquilo. A festa é coletiva, o boleto é individualizado.

E aqui mora a parte que ninguém comenta nas lives de finanças. Esse tipo de movimento só é possível porque o sistema inteiro foi calibrado para inflar ativos. Juros artificialmente comprimidos durante mais de uma década, liquidez despejada na veia do mercado, fundos passivos comprando qualquer coisa que entre no índice, ETFs temáticos canalizando aposentadoria de dentista no Texas para empresas pré-receita em Boulder, Colorado. Não é mercado, é coreografia. E nessa coreografia, alguém sempre dança até o fim, e geralmente é o que chegou por último na pista.

O escândalo silencioso é que isso é legal, divulgado, registrado, está num formulário público da SEC e ninguém vai preso. Não precisa. O esquema foi normalizado de tal maneira que o próprio lesado aplaude. Compra a ação na semana seguinte ao filing, posta no Twitter que está acumulando na baixa, chama de oportunidade aquilo que o insider chamou de saída. A engenharia financeira moderna não exige fraude; basta a assimetria de informação operando dentro da lei, com selo de qualidade da CVM ou da SEC.

Fica a pergunta que o noticiário da Investing não vai fazer, porque vive de espalhar a próxima narrativa. Se a computação quântica fosse mesmo a revolução iminente que vendem, por que o diretor está saindo agora, e não daqui a três anos com o triplo do preço? Ou ele é o pior alocador de capital da história do setor, ou ele sabe exatamente o que está fazendo. E entre as duas hipóteses, a navalha de Occam tem opinião formada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.