Um diretor da Presurance Holdings comprou cerca de dezoito mil e quatrocentos dólares em ações da própria empresa e, em algum lugar de São Paulo, um analista de banco vestido de camisa azul clara considerou aquilo informação relevante. Dezoito mil dólares. O preço de um carro usado em Miami. O valor de uma reforma modesta de cozinha em Alphaville. E isso, para o teatro regulatório contemporâneo, é fato material que precisa ser reportado, catalogado, disseminado e interpretado como se fosse a queda do muro de Berlim em versão financeira.

Olha, o insider trading virou uma dessas obsessões ocidentais que ninguém mais questiona porque todo mundo acha que está óbvio. Mas pare um segundo e pense no absurdo. Quem deveria saber mais sobre uma empresa do que o sujeito que senta na diretoria dela? Quem deveria ter mais incentivo a comprar quando enxerga que o papel está subvalorizado? O executivo que compra ação da própria firma está fazendo exatamente o que a teoria econômica elementar esperaria dele: alocando capital onde ele tem informação superior. O escândalo seria o contrário, o diretor que vende a descoberto a própria empresa enquanto sorri para a câmera no relatório trimestral.

Quer dizer, o arranjo regulatório atual transforma o óbvio em suspeito e o suspeito em normal. Fundos sistêmicos negociam bilhões com base em algoritmos que ninguém entende e isso é chamado de eficiência de mercado. Um diretor põe dezoito mil dólares do próprio bolso na companhia que dirige e precisa preencher formulário, declarar janela, esperar blackout period, publicar aviso e torcer para que nenhum procurador federal entediado resolva abrir investigação na semana seguinte. A assimetria não está no mercado, está na burocracia que se autoalimenta vendendo a ideia de que sem ela haveria caos.

E siga o dinheiro, que é sempre o melhor conselho que alguém pode receber num mundo onde tudo vira narrativa. Quem lucra com essa ginástica de divulgação compulsória? Não é o pequeno investidor, que continua comprando no topo e vendendo no fundo como sempre fez. Não é a empresa, que gasta fortuna com advogados de compliance para não errar o timing de um comunicado de rotina. Quem lucra é a indústria paralela de consultorias, escritórios especializados, plataformas de dados financeiros que cobram assinatura caríssima para entregar de volta ao mercado a informação que a própria regulação obrigou a publicar. É um circuito fechado onde a burocracia cria o problema, vende a solução e ainda cobra ingresso para quem quiser assistir ao espetáculo.

O mais saboroso é o moralismo que cerca essas compras simbólicas. Quando um executivo coloca alguns milhares na própria empresa, a imprensa especializada celebra como sinal de confiança. Quando vende, mesmo que seja para pagar imposto de herança ou dívida de divórcio, a manchete vira alerta de fuga. Como se o homem que dirige a companhia devesse viver de ração de cachorro e nunca tocar no próprio patrimônio sob pena de ser acusado de saber algo que os outros não sabem. Pois é exatamente isso que ele deveria saber. Essa é a função dele. Pagam ele para saber.

No fim das contas, dezoito mil dólares em ações são dezoito mil dólares em ações. Não mudam o destino da Presurance, não movem o índice, não alteram o cenário macro, não dizem nada sobre juros americanos nem sobre o próximo ciclo monetário. O que a nota de rodapé realmente revela é que construímos um sistema financeiro tão obcecado com transparência cerimonial que transformou gesto trivial em manchete e manchete em produto vendável. O mercado livre não precisava disso. Alguém precisou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.