Um diretor da Q32 Bio acaba de tirar US$ 15 milhões do bolso para comprar ações ordinárias da própria companhia. Não opções subsidiadas, não pacote de remuneração maquiado de "alinhamento", não ação restrita que cai do céu via comitê de compensação. Compra de verdade, com dinheiro de verdade, no mercado aberto, ao preço que qualquer mortal pagaria. E é justamente por ser banal que o gesto vira escândalo, porque revela, por contraste, o quanto o resto do mercado virou teatro.
Olha, existe um nome técnico para isso, e os manuais chamam de skin in the game. Tradução honesta: o sujeito está apostando o próprio couro. Quando um executivo compra ação da empresa que dirige com salário que ele mesmo ganhou, está dizendo ao mercado algo que nenhum release de imprensa consegue dizer, porque release é grátis e ação custa caro. Se der errado, ele perde. Se der certo, ele ganha junto com você. Essa simetria, essa coisa básica e quase pré moderna de risco compartilhado, virou exceção num mundo em que CEO ganha bônus quando a empresa cresce e ganha indenização quando a empresa quebra.
Quer dizer, a indústria de biotecnologia é especialmente fértil em truques contábeis e narrativas vendidas a investidor crédulo. Empresa pré receita, queimando caixa, vivendo de rodada de capital, com diretoria que se paga em opções diluitivas e fala em "criar valor de longo prazo" enquanto vende a posição no primeiro vesting. O padrão é tão grosseiro que virou piada interna em Wall Street. E aí, no meio desse pântano, alguém aparece e faz o gesto exatamente oposto, escreve um cheque de oito dígitos pessoais para entrar na mesma fila do investidor de varejo. Não é heroísmo, é apenas honestidade, mas a honestidade, hoje, parece heroísmo.
Me diz uma coisa, por que esse gesto deveria ser notícia? Deveria ser o piso, o mínimo civilizatório do capitalismo de acionista. O fato de ser manchete prova que o sistema inteiro de governança corporativa moderna inverteu os incentivos. Conselhos de administração que aprovam remuneração obscena para executivos que nunca correram risco real, comitês de auditoria capturados pelos próprios auditados, fundos passivos que votam em piloto automático, agências regulatórias que protegem o gerente contra o dono. Resultado: o capitalismo de mercado virou capitalismo gerencial, que é uma forma sofisticada de socialismo dos diretores, em que o lucro é privatizado e a perda fica com o acionista pulverizado.
Siga o dinheiro, é o conselho mais útil que alguém pode dar a quem quer entender qualquer setor. E quando o dinheiro do próprio executivo entra na mesma corrente do dinheiro do investidor anônimo, alguma coisa de saudável aconteceu, ainda que pontualmente. Não significa que a Q32 vai virar a próxima Moderna, não significa que a aposta vai dar certo, significa apenas que existe uma cabeça lá dentro que acredita no que está vendendo a ponto de pagar para ver. E essa informação, num mercado em que quase todo executivo trata a própria ação como batata quente, vale mais que dez relatórios de buy side, vinte projeções de fluxo de caixa descontado e cem entrevistas de CNBC.
A lição é antiga e cabe num provérbio que qualquer comerciante do interior conhece: confie no homem que come da própria comida. Tudo o resto é conversa, e conversa, no mercado financeiro, é o ativo mais barato que existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.