Um diretor da Snowflake despejou no mercado pouco mais de sete milhões de dólares em ações da própria empresa. O comunicado sai naquele tom burocrático de praxe, cumprindo formalidade regulatória, redigido para que ninguém entenda direito o que aconteceu. Mas o que aconteceu é simples, e qualquer pessoa que tenha vivido um ciclo de mercado sabe ler a cena. Quem conhece a empresa por dentro, quem vê a planilha antes do balanço, quem participa das reuniões de produto e das previsões de receita, esse sujeito decidiu trocar papel por dinheiro vivo. E não foi pouco dinheiro.
Existe uma assimetria de informação que o mercado finge não ver porque finge é mais lucrativo do que enxergar. O executivo que vende não está fazendo "rebalanceamento de portfólio", como dizem os assessores de comunicação treinados para suavizar tudo. Ele está exercendo o privilégio mais antigo do capitalismo de compadrio moderno, que é saber antes. Saber antes vale ouro. E quando o sujeito que sabe antes vende, o sujeito que sabe depois compra. A conta de chegada desse jogo, o leitor já adivinha quem paga.
O setor de tecnologia americano vive há quinze anos num cassino subsidiado por dinheiro barato. Quando o banco central derrama liquidez no sistema, ações de empresas que nem lucro têm passam a valer fortunas, porque o dinheiro precisa ir para algum lugar e não vai ficar parado rendendo zero. Snowflake, como tantas outras, foi inflada nessa enchente. Agora que os juros sobem, que a maré desce, descobre-se quem estava nadando pelado. E os primeiros a vestir a sunga, antes da maré recuar de vez, são justamente os que controlam a piscina.
Repare na coreografia. O executivo recebe ações como parte da remuneração, paga imposto baixíssimo sobre isso, espera o momento certo, vende em bloco e embolsa. O acionista comum, esse que comprou a ação porque o influenciador do YouTube falou bem, esse paga imposto cheio sobre o pouco que sobrar, se sobrar. Chama-se isso de mercado de capitais, mas o nome correto seria mercado de capitalistas, aqueles com C maiúsculo, com acesso, com cronograma privilegiado de saída. Os outros são a plateia que aplaude o espetáculo enquanto é parte da cena.
O detalhe que ninguém comenta é que essa venda em si é legal, comunicada, dentro das regras. E aí mora o problema mais profundo. Quando o sistema permite legalmente uma vantagem estrutural permanente para os de dentro, a lei deixou de proteger e passou a chancelar. A regulação que deveria nivelar o jogo virou carimbo decorativo numa partida em que o resultado já é conhecido pelos jogadores principais antes do apito inicial. O resto é entretenimento financeiro para distrair o pagador.
Fica a lição que se repete a cada ciclo, em cada bolha, em cada nova promessa de revolução tecnológica. Quando o diretor vende, o leitor compra. Quando o leitor finalmente entende, o diretor já está numa praia em algum lugar onde o imposto não chega. O mercado não mente, mas exige tradução. E a tradução está sempre disponível, gratuita, no formulário regulatório que ninguém lê.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.