Sai mais um. O diretor de receitas da Datadog, aquele sujeito que teoricamente tem a visão mais privilegiada sobre o futuro da receita da empresa, acaba de embolsar três milhões e meio de dólares vendendo ações da própria companhia. E a manchete vem embrulhada naquele papel celofane de notícia técnica, fria, neutra, como se fosse apenas mais uma linha no formulário da SEC. Quer dizer, o cara que vende café sabe quando o café está rançoso, o cara que vende carro sabe quando o motor está batendo pino, mas o cara que vende receita sabendo o tamanho do pipeline desova ações e isso é só "movimentação de rotina". Tudo bem, então.

Olha, existe uma assimetria de informação aqui que qualquer aluno do primeiro semestre de economia identifica em trinta segundos. De um lado, o executivo que vê os relatórios internos, conhece os contratos em renovação, sabe quais clientes corporativos estão ameaçando trocar de fornecedor e tem acesso à projeção de fechamento do trimestre antes de qualquer analista de Wall Street. Do outro lado, o pobre coitado que mora em Cleveland, compra ações pelo aplicativo da corretora porque leu numa newsletter que tech é o futuro, e vai engolir essas mesmas ações com prêmio. Adivinha quem ganha essa partida de pôquer.

O setor de software empresarial está vivendo aquele momento clássico em que os múltiplos não se sustentam mais pela realidade do faturamento, mas pela expectativa de que a inteligência artificial vai magicamente justificar tudo. É a velha história da tulipa holandesa repintada com tinta neon do Vale do Silício. Quando os holandeses ricos começaram a despejar bulbos no século dezessete, o camponês ainda estava entrando comprado, achando que ia ficar nobre. Quatrocentos anos depois, trocaram-se os bulbos por linhas de código, mas a coreografia é idêntica. Quem está dentro descarrega, quem está fora carrega.

Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta de onde vem o dinheiro que sustenta esses preços inflados? Vem da expansão monetária americana que jogou trilhões no sistema durante a pandemia, vem dos fundos de pensão obrigados por regulação a alocar em renda variável, vem do trabalhador que coloca parte do salário num fundo passivo que compra tudo que está no índice sem perguntar se está caro. O executivo vende para a fila do 401k. A festa é privatizada, a ressaca é socializada, e quando o castelo cair, vai ter ministro pedindo socorro estatal em nome da "estabilidade sistêmica".

O detalhe que ninguém quer ver é que executivos vendendo no atacado não significa apenas que eles querem comprar uma casa de praia. Significa que quem tem o mapa do tesouro está saindo do navio antes da tempestade. Quando um, dois, três, dez executivos seniores começam a executar planos pré-programados de venda massiva no mesmo trimestre, isso não é coincidência, é coreografia. Os planos podem ser legais, podem estar registrados nos termos da regra 10b5-1, podem ser absolutamente impecáveis do ponto de vista regulatório. E ainda assim contam uma história que o release de imprensa esconde.

O capitalismo de verdade é maravilhoso porque pune o erro e premia o acerto. O capitalismo de palco, esse das ações de tecnologia infladas por liquidez artificial, é um teatro onde o ator principal sai pela porta dos fundos com o caixa enquanto a plateia ainda aplaude o segundo ato. Quando a luz acender, o varejista vai descobrir que comprou cadeira na sala vazia. Mais uma vez.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.