O diretor de tecnologia da Snap acaba de transformar US$ 2,02 milhões em ações da empresa em dinheiro vivo na conta. Não é crime, é legal, é registrado, é até elegante na papelada da SEC. Mas convenhamos, executivo de tecnologia não vende a própria empresa em bloco porque acordou inspirado a redecorar a casa de praia. Quem constrói o produto sabe antes de qualquer analista de Wall Street o que está por vir, e age de acordo. O resto do mercado lê o release, o insider lê o código.
Há uma assimetria fundamental aqui que a turma da governança corporativa adora fingir que não existe. O pequeno investidor, aquele que comprou Snap acreditando no papinho sobre realidade aumentada e o futuro luminoso das redes sociais para adolescentes, está do lado de fora da sala onde as decisões reais acontecem. Do lado de dentro, o sujeito que assina os roadmaps de tecnologia da empresa olhou para o horizonte, calculou o risco, e preferiu o conforto sólido do dólar à promessa volátil do papel. Curioso, não? O homem que deveria estar mais entusiasmado com o futuro da Snap é justamente quem está se livrando dele.
O mercado de ações de empresas de tecnologia virou um cassino sofisticado onde os crupiês também jogam. Toda vez que o banco central afrouxou crédito na última década, dinheiro fácil inflou múltiplos absurdos em empresas que mal sabem dar lucro consistente, e a Snap é caso de manual. Quando esse oxigênio artificial começa a ficar mais caro, o primeiro a sair pela porta dos fundos é quem viu a festa começar. O acionista comum, alimentado por aplicativos de corretora com confete na tela, fica segurando o mico achando que está investindo em inovação.
O detalhe que ninguém comenta nos relatórios bonitinhos é que a remuneração de executivos de tech é desenhada justamente para esse momento. Pacotes de stock options gigantescos, vesting escalonado, janelas de venda programadas que dão aparência de rotina ao que é, na prática, uma forma legalizada de transferir risco para o cidadão que comprou a ação no app. O insider ganha quando sobe e ganha quando vende; o investidor de varejo ganha quando sobe e perde quando o insider vende. É um jogo de cartas marcadas que se apresenta como meritocracia da inovação.
E olha, isso aqui não é teoria conspiratória, é prosa de planilha. Estudos repetidos mostram que vendas concentradas de executivos costumam preceder períodos de subperformance da ação. Não é regra de ferro, mas é padrão suficientemente consistente para que o investidor sério preste atenção. O problema é que a maior parte do varejo não lê nem o filing da SEC, lê o tweet do influenciador financeiro que recebeu por divulgar. Enquanto isso, quem está dentro segue calmamente convertendo papel em prédio, em terra, em ouro, em qualquer coisa que não dependa do próximo trimestre de uma empresa cujo modelo de negócio é fazer adolescente perder tempo com filtros de rosto.
A lição aqui é antiga e o mercado insiste em fingir que esqueceu. Onde há informação assimétrica, há transferência de riqueza dos ignorantes para os informados, e nenhuma agência reguladora, nenhuma lei de disclosure, nenhum compliance officer de gravata vai mudar essa física básica. O remédio não é mais regulação, é mais ceticismo. Quando o capitão começa a esvaziar o próprio camarote, o passageiro inteligente para de admirar a vista e olha onde estão os botes.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.