O roteiro é tão velho que dá preguiça de assistir. Surge um surto de Ebola numa província remota do Congo, a Organização Mundial da Saúde aciona o microfone, o diretor-geral faz cara de gravidade existencial, e o pedido sai pronto da boca como reza decorada: precisamos de mais financiamento, precisamos de solidariedade internacional, precisamos que os países desenvolvidos abram a carteira. Repare bem na sequência, porque ela nunca muda. Primeiro o medo, depois a urgência, no fim a fatura. E a fatura, sempre, vai parar no mesmo lugar.
Quer dizer, o sujeito vem a público convocar a comunidade internacional como se a OMS fosse uma ONG faminta operando com voluntários descalços. Não é. Estamos falando de uma máquina que torra bilhões por ano, mantém escritórios em Genebra com vista para o lago, paga salários de organismo internacional, viaja em classe executiva e tem um corpo de funcionários que faria inveja a qualquer multinacional. Onde foi parar o dinheiro do surto anterior? E do anterior ao anterior? E daquele bilhão que entrou na pandemia? Ninguém pergunta. A imprensa repete o release, os governos prometem mais um aporte, e a engrenagem segue girando.
Olha, o Ebola é doença real, mata gente real, devasta comunidades reais. Ninguém aqui está minimizando o sofrimento de quem perde família num vilarejo do Kivu. O que precisa ser dito é outra coisa: o dinheiro mandado para combater o surto raramente chega ao vilarejo. Ele evapora numa cadeia de intermediários que começa em Genebra, passa por consultorias internacionais, escala ministérios congoleses notoriamente saqueados, e chega ao fim da linha como um pacote de luvas e máscaras que custou dez vezes o preço de mercado. Quem trabalha com cooperação internacional há mais de uma década sabe disso de cor. Só os ingênuos e os interessados fingem não saber.
Me diz uma coisa, em que outro setor uma organização poderia fracassar repetidamente, ser pega mentindo sobre origem de pandemia, blindar regimes que escondem dados, gastar fortunas em viagens e seminários, e mesmo assim aparecer publicamente pedindo mais dinheiro sem que ninguém pergunte por uma auditoria séria? Só em organismo internacional. É o único arranjo institucional do planeta onde o fracasso vira argumento para aumento orçamentário. Falhou no combate ao surto? Precisa de mais verba. Não conseguiu prever a próxima epidemia? Precisa de mais verba. Foi capturado por interesses geopolíticos chineses? Precisa de mais verba, e de preferência sem fiscalização.
Existe um padrão histórico nisso, e ele é antigo como o próprio império. Toda burocracia transnacional, da Roma tardia em diante, descobre cedo que crises permanentes são o melhor combustível para orçamentos permanentes. A peste, a fome, a guerra, a epidemia, tanto faz, o que importa é manter a sensação de emergência viva o suficiente para justificar a continuidade do aparato. O Ebola congolês cumpre hoje o papel que outrora cumpriu a tuberculose, a malária, a aids, a gripe suína, o zika. A doença muda, o pedido de dinheiro permanece idêntico.
A pergunta libertária aqui é simples e incômoda: por que cabe ao contribuinte alemão, ao trabalhador americano, ao pequeno empresário brasileiro custear a infraestrutura sanitária de um Estado africano falido cujos governantes desviam mais do que recebem? Caridade privada existe, missões médicas existem, fundações filantrópicas existem, e fazem trabalho infinitamente mais eficiente porque respondem a doadores que cobram resultado. Burocracia internacional não responde a ninguém. Erra de graça, acerta com bônus, e termina o ano pedindo aumento. Enquanto o mundo tratar isso como normal, o Ebola seguirá sendo, antes de tudo, um excelente modelo de negócio para quem nunca pisou no Congo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.