O diretor regulatório da Genelux, biofarmacêutica que pesquisa terapias virais contra câncer, vendeu pouco mais de quinhentos dólares em ações da própria empresa. A operação foi registrada, catalogada, divulgada, transformada em notícia, distribuída por agências internacionais e finalmente chegou até você, leitor brasileiro, como se fosse um evento relevante para o capitalismo global. Pois bem, vamos por partes, porque o absurdo aqui não está no executivo nem na venda, está na maquinaria que torna isso digno de manchete.
Quinhentos e sessenta e dois dólares. Para se ter ideia da escala, é menos do que custa um pneu decente de carro popular. É menos do que a conta de luz de uma família de classe média em São Paulo num mês de verão. E ainda assim a Securities and Exchange Commission, com seu orçamento bilionário e seu exército de burocratas, mantém uma estrutura inteira de monitoramento, processamento e divulgação de transações desse calibre. O custo regulatório de registrar essa venda provavelmente foi várias vezes superior ao próprio valor vendido. Mas ninguém pergunta isso, porque a pergunta é inconveniente.
O que se vê é a manchete da transparência, o ritual do compliance, a aparência de que o mercado está vigiado, controlado, protegido. O que não se vê é a montanha de horas humanas desperdiçadas, advogados pagos, sistemas mantidos, formulários preenchidos, comunicações disparadas, tudo para informar ao mundo que um sujeito vendeu o equivalente a meio salário mínimo americano em papéis de uma empresa que a maioria das pessoas jamais ouviu falar. Esse é o custo invisível da pretensão regulatória, e ele é pago por todos os acionistas, todos os consumidores e, no fim das contas, por qualquer paciente que um dia precise dos remédios que essa empresa talvez consiga desenvolver se sobrar dinheiro depois de cumprir o teatro burocrático.
A lógica oficial diz que executivos vendendo ações revelam informação privilegiada, que insiders sinalizam ao mercado, que a transparência protege o investidor pequeno. Belas palavras. Só que ninguém com mais de dois neurônios funcionais acredita que um diretor regulatório se desfaria de informação interna privilegiada vendendo quinhentos dólares. Se ele soubesse de algo grande, venderia milhões, não quinhentos. A venda mínima é exatamente o oposto de um sinal, é ruído puro, é poeira estatística que o sistema regulatório trata como se fosse sismo. E assim a máquina segue funcionando, produzindo informação sobre nada, gastando recursos com nada, ocupando jornalistas com nada.
Há uma verdade incômoda escondida nesse episódio que ninguém quer enunciar: a regulação moderna não existe para proteger ninguém, existe para se autoperpetuar. Cada formulário gera demanda por um burocrata que processa o formulário. Cada burocrata gera demanda por um sistema que organiza os burocratas. Cada sistema gera demanda por uma agência que supervisiona o sistema. E no topo dessa pirâmide invertida, alguém precisa justificar a existência de tudo isso produzindo relatórios sobre vendas de quinhentos dólares como se fossem ameaças sistêmicas. A indústria farmacêutica reclama do custo de pesquisa, das décadas para aprovar um remédio, do preço final que esmaga o consumidor. Episódios assim explicam por quê.
No fim, a notícia mais reveladora não é a venda em si, é o fato de existir uma notícia sobre ela. É o sintoma de uma civilização que confundiu vigilância com sabedoria, processo com resultado, transparência com inteligência. Enquanto isso, a China e a Índia produzem cientistas em escala industrial e o Ocidente produz formulários sobre vendas de quinhentos dólares. Adivinhe quem vai descobrir a cura do câncer primeiro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.