Oitocentos e quatro dólares. Leia de novo, devagar, porque o número merece ser saboreado. O diretor regulatório da Genelux, uma biofarmacêutica americana de capital aberto, executou uma venda de ações no valor equivalente a um jantar razoável para quatro pessoas em São Paulo, e isso foi suficiente para gerar uma nota em portal financeiro internacional, replicada, traduzida, indexada, empurrada para o feed de investidores que agora vão passar trinta segundos coçando a cabeça tentando entender se aquilo é sinal de algo. Não é. É ruído. E o ruído, quando produzido em escala industrial, cumpre uma função muito específica no ecossistema financeiro contemporâneo.

Veja o truque. A regulação americana obriga executivos a reportarem qualquer movimentação de ações da própria empresa, o que em tese é uma boa ideia, transparência, accountability, o cidadão comum sabendo o que o insider está fazendo com o papel. Em teoria. Na prática, a máquina regulatória produz toneladas de relatórios obrigatórios que ninguém lê, que portais automatizados transformam em manchete por algoritmo, e que servem para criar uma falsa sensação de que o sistema está sendo vigiado. O cidadão olha, vê que o diretor vendeu oitocentos dólares, conclui que a SEC está funcionando, e volta a dormir. Missão cumprida pela burocracia: fabricou-se a aparência de fiscalização sem fiscalização nenhuma.

Agora me diz uma coisa. Quando foi a última vez que você viu manchete sobre o presidente do Federal Reserve aumentando o balanço em centenas de bilhões? Quando foi a última vez que um portal financeiro destrinchou, com a mesma diligência burocrática, a desvalorização real do seu salário pela emissão monetária do último trimestre? Pois é. A régua do escândalo é calibrada para detectar o mosquito e ignorar o elefante. Oitocentos dólares de um diretor regulatório qualquer viram notícia. Trilhões saindo da impressora viram política monetária, termo respeitável, assunto de gente séria, debatido em mesas redondas com gravata.

O sujeito que vendeu os oitocentos dólares provavelmente precisava pagar o IPTU, comprar um presente, cobrir uma fatura. Não há crime, não há sinal, não há nada. Mas a notícia existe porque o sistema regulatório precisa justificar sua existência produzindo papelada, e a imprensa financeira precisa preencher espaço produzindo manchete. Os dois se alimentam mutuamente num arranjo simbiótico que dá emprego a milhares de burocratas e jornalistas sem entregar absolutamente nada de valor ao investidor real, aquele que queria saber se a empresa tem futuro, se o pipeline de produtos é sólido, se os fundamentos justificam o preço.

E aqui está o detalhe deliciosamente revelador. A Genelux é uma empresa que desenvolve terapias oncológicas, um setor onde a verdadeira informação relevante envolve resultados de ensaios clínicos, aprovações regulatórias, queima de caixa, tempo até a próxima rodada de capital. Tudo isso é difícil de entender, exige leitura técnica, demanda paciência. Vender oitocentos dólares é fácil de noticiar. O resultado é que o leitor recebe a notícia mais inútil possível embrulhada no papel de presente da relevância, enquanto a notícia que importaria de fato exige um esforço que nem o portal quer fazer nem o leitor médio está disposto a investir.

Isso aqui é o capitalismo de papelada em sua forma mais pura, o ritual burocrático que substituiu a análise, o teatro da transparência que opera no lugar da transparência real. O insider vendeu o equivalente a uma conta de mercado, o regulador anotou, o portal publicou, o algoritmo indexou, e ninguém saiu mais sábio. Mas todo mundo saiu mais ocupado, e ocupação, no mundo moderno, virou sinônimo de utilidade. É por isso que o sistema não vai mudar. Ele não foi feito para informar você. Foi feito para se autoperpetuar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.