Um diretor sênior da Entegris, fabricante americana de insumos para a indústria de semicondutores, despachou cerca de US$ 280 mil em ações da própria companhia. A operação foi registrada nos formulários obrigatórios da SEC, aqueles documentos que ninguém lê na hora certa e todo mundo cita depois que o preço cai. Vender ações da empresa onde se trabalha é direito do executivo, óbvio. O que merece atenção é o ritual que se repete com a precisão de um relógio suíço, executivo vende, investidor de varejo compra, e seis meses depois alguém escreve um artigo perplexo perguntando como ninguém viu o que estava vindo.

Olha, o ponto não é demonizar quem vende. Quem está dentro da companhia sabe da margem do próximo trimestre, do contrato que não foi renovado, do cliente asiático que está pedindo desconto agressivo, da pressão na cadeia de litografia. Quem está fora sabe o que o release de imprensa diz, e o release de imprensa nunca diz que o sócio está saindo pela porta dos fundos com a mala cheia. Essa diferença de informação, na economia real, se paga em dinheiro. Sempre se pagou. Sempre se pagará.

A indústria de semicondutores virou o novo bezerro de ouro do mercado americano desde que Washington decidiu transformar chip em questão de segurança nacional. O CHIPS Act despejou US$ 52 bilhões em subsídios, e cada empresa minimamente próxima do setor virou queridinha de fundo. Quer dizer, o contribuinte americano financia a festa via Tesouro, o papel infla via narrativa de Wall Street, o executivo realiza lucro via venda programada, e o investidor que comprou no topo descobre que a fila do prejuízo anda mais rápido que a fila do bônus. É a receita clássica, dinheiro público entra de um lado, lucro privado sai do outro, e quando a coisa azedar vão chamar de falha de mercado.

Me diz uma coisa, alguém aí ainda acredita que a Comissão de Valores Mobiliários americana, ou qualquer outra, foi criada para proteger o pequeno investidor? Essas agências existem para legitimar o jogo, não para nivelá-lo. O formulário 4 que o diretor preencheu é exatamente o álibi jurídico que permite que a venda aconteça à luz do dia sem que ninguém possa reclamar depois. A regulação não impediu nada, regulou o tempo do impedimento, transformou desigualdade de informação em procedimento administrativo. É a velha alquimia, o que era pilhagem virou compliance.

O fundo da questão é que ninguém deveria se surpreender com isso, e a surpresa é justamente o sintoma de que a educação financeira do brasileiro, e do americano também, virou marketing de corretora. Aprende-se a comprar ETF, a diversificar, a fazer aporte mensal, mas ninguém ensina o básico, que toda operação tem uma contraparte, e quando a contraparte do seu otimismo é o diretor financeiro da companhia, talvez seja hora de revisar o entusiasmo. O mercado livre é o melhor sistema já inventado para alocar capital, mas livre não significa ingênuo, e mercado não é a creche onde o regulador vigia para que ninguém leve seu lanche.

Resta a pergunta que ninguém em mesa de operações faz em voz alta. Se quem fabrica o chip está vendendo o papel, por que você está comprando? A resposta honesta dói, porque você acreditou na história que vendem na CNBC, e a história, como sempre, foi escrita por quem está do outro lado da mesa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.