Olha, o fato é simples e ao mesmo tempo profundamente revelador. Uma diretora da Doximity, plataforma que se vende como o "LinkedIn dos médicos" americanos, descarrega duzentos e trinta e quatro mil e quinhentos e quarenta dólares em ações classe A e a manchete vem embalada naquele papel de presente típico do jornalismo financeiro de balcão, como se fosse apenas mais uma linha numa planilha trimestral da SEC. Quer dizer, ninguém pergunta o óbvio. Por que agora? Por que esse volume? Por que classe A, justamente a classe que o investidor de varejo compra na bolsa enquanto os fundadores e diretores seguram as ações classe B com poder de voto multiplicado?

Me diz uma coisa. Quando o sujeito que está sentado na sala de reunião, que vê o relatório de receita antes de virar comunicado, que conhece o pipeline de produto, o churn dos médicos pagantes e a pressão das big techs invadindo o setor de saúde, decide converter papel em dinheiro vivo, isso é um sinal de quê? De confiança no futuro da empresa? Difícil. Ninguém vende quartzo achando que vai virar diamante na semana seguinte. A informação assimétrica é a regra do jogo, e ela existe justamente porque o mercado de ações listadas em bolsa, com toda a sua liturgia de transparência, continua sendo um cassino de dois andares: no andar de cima, quem vê as cartas; no andar de baixo, quem aposta no palpite.

E aqui aparece a contradição que o leitor desavisado não enxerga porque parou de enxergar de tanto repetirem que enxergou. A Doximity é filha legítima do dinheiro fácil daquele ciclo de juro zero pós-pandemia, quando capital de risco jorrou em cima de qualquer empresa que colasse a palavra "saúde" num app de mensagem. Veio o IPO em 2021 a quase oitenta dólares por ação, veio o tombo para a casa dos vinte, veio a recuperação parcial, e agora vem a saída silenciosa de quem está por dentro. O padrão se repete em dezenas de empresas do mesmo lote, e o investidor pessoa física continua sendo convidado a entrar pela porta da frente justamente quando os donos saem pela porta dos fundos com a mala feita.

Siga o dinheiro, sempre. A estrutura de classes diferenciadas de ações foi vendida ao público como engenharia financeira sofisticada, blindagem de fundadores visionários contra a tirania de curto prazo do mercado. Na prática, é o mecanismo pelo qual quem manda na empresa converte capital de risco alheio em patrimônio pessoal sem perder o controle. O acionista classe A paga a conta, o acionista classe B come o jantar. E quando o jantar começa a esfriar, adivinha quem é o primeiro a se levantar da mesa.

Há ainda a camada cultural do problema, que ninguém quer encarar de frente. Toda essa indústria de plataformas profissionais, de redes sociais segmentadas, de softwares que prometem reinventar profissões milenares como a medicina, depende de uma coisa só: a fé de que o futuro pertence ao intermediário digital. Mas a medicina existia antes do app e existirá depois. O médico que precisa de uma plataforma americana para conversar com colega não é médico, é prestador de serviço de uma cadeia produtiva que descobriu como cobrar pedágio. Quando o pedágio fica caro demais ou a estrada arruma um atalho, o pedagiante de plantão vende as ações.

A lição é antiga e nunca é aprendida. A informação privilegiada é o oxigênio dos andares de cima e o monóxido de carbono dos andares de baixo. Cada vez que um diretor vende, o investidor de varejo deveria parar, respirar e ler o formulário inteiro antes de comprar. Não vai parar. Não vai ler. Vai comprar no boletim do dia seguinte achando que pegou uma pechincha. E é exatamente por isso que existe quem venda.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.