Quarenta e seis mil setecentos e oitenta e dois dólares. É o valor que uma diretora da HomeTrust Bancshares achou que valia a pena tirar do papel da própria companhia e transformar em dinheiro vivo. Um detalhe técnico, dirão os distraídos, ruído estatístico no oceano do mercado financeiro. Mas o leitor atento sabe que não existem detalhes inocentes quando se trata de quem está dentro da sala vendendo para quem está fora dela comprando.
O chamado insider, esse personagem que conhece o balanço antes do balanço ser publicado, que ouve a conversa do conselho antes do release oficial, que sabe se o próximo trimestre vem com vento a favor ou furacão pela proa, raramente vende sem motivo. Quando vende, manda um sinal. E o sinal que está sendo mandado aqui é desconfortável o bastante para merecer atenção, ainda que o valor pareça modesto para os padrões de Wall Street. O que importa não é o tamanho do cheque, é a direção do gesto.
Repare na assimetria fundamental do jogo. O cidadão comum, aquele que aplica o suado salário no fundo de ações do banco da esquina, recebe informação filtrada, atrasada, embrulhada em jargão e servida com cobertura de otimismo institucional. O executivo, esse não. Ele tem acesso ao número antes do número virar manchete, sabe da reestruturação antes da reestruturação ser anunciada, conhece o problema antes do problema vazar para a CNBC. E quando ele vende, está vendendo para alguém que está comprando sem saber metade do que ele sabe. Chama-se isso de mercado eficiente nos livros didáticos. No mundo real, tem outro nome.
O setor bancário americano, aliás, vive um daqueles momentos em que conviria olhar para o que não está sendo dito. Anos de dinheiro barato fabricado pela impressora oficial criaram balanços inchados, ativos precificados em níveis que só fazem sentido enquanto a festa do crédito continua. Quando os juros sobem e a maré recua, descobre-se quem estava nadando pelado. Os pequenos bancos regionais, dos quais a HomeTrust é exemplar típico, costumam ser os primeiros a sentir o aperto, porque vivem do casamento delicado entre depósitos baratos e empréstimos lucrativos, casamento que se desfaz com facilidade quando a taxa básica decide passear.
E o que faz a indústria de gestão de patrimônio diante disso? Continua emitindo recomendação de compra, continua cobrando taxa de administração, continua entupindo o varejo com cotas de fundos que carregam exatamente os papéis que os executivos dessas mesmas empresas estão silenciosamente colocando à venda. O capitalismo de compadrio financeiro, esse arranjo intrincado em que reguladores viram executivos, executivos viram lobistas e lobistas viram reguladores, garante que o jogo continue rolando com as cartas marcadas a favor de quem mora dentro do cassino.
A lição é antiga e nunca envelhece. Observe o que as pessoas fazem com o próprio dinheiro, não o que dizem com o microfone na mão. Quando o executivo vende, ele está votando com a carteira, e o voto da carteira é sempre mais sincero que o voto do comunicado de imprensa. O resto é coreografia para entreter os que pagam a conta sem perceber que estão pagando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.