A diretora de conformidade da Amgen, a profissional cuja única função é zelar para que a farmacêutica respeite leis, regulamentos e o tal do "comportamento ético corporativo", acaba de embolsar quatrocentos mil e quatrocentos e cinquenta dólares vendendo papéis da própria empresa. O comunicado oficial é seco, burocrático, redigido naquela prosa anestesiada que as áreas de relações com investidores aperfeiçoaram para que o leitor desista da leitura antes da terceira linha. Mas o fato, despido do verniz, é constrangedor: quem deveria ser a última a perder a fé no negócio foi exatamente quem correu primeiro para o caixa.
Existe uma regra de bolso que o investidor sério aprende cedo e o regulador finge não conhecer. Insider compra ações por um motivo apenas, que é ganhar dinheiro. Insider vende ações por mil motivos, e quase nenhum é bom. Pode ser diversificação patrimonial, pode ser divórcio, pode ser plano automático programado meses atrás. Pode também ser que a pessoa que lê os relatórios internos antes de qualquer mortal tenha visto algo que o restante do mercado ainda não viu. A diferença entre uma hipótese e outra é justamente o que a tal "conformidade" deveria iluminar, e olha que coincidência, é a chefe da conformidade que está vendendo.
O setor farmacêutico americano vive de um arranjo que já passou da hora de chamar pelo nome. Empresas como a Amgen não competem num mercado livre, competem num cassino regulatório onde a casa, a FDA, decide quem entra na roleta e quem fica na calçada. Patente prorrogada aqui, exclusividade estendida ali, programa governamental de reembolso bilionário acolá, e o lucro deixa de ser fruto da invenção e passa a ser fruto do lobby. Nesse ecossistema, a função de "compliance" não é proteger o consumidor, é proteger a empresa do consumidor, do jornalista, do procurador e, sobretudo, do próximo escândalo. Quando a guardiã desse muro começa a liquidar posição, o muro tende a estar com rachadura.
O leitor distraído olha para os quatrocentos mil dólares e pensa em fortuna. O leitor atento olha para o que a venda significa dentro do organograma e percebe sinal. Sinal não é prova, e ninguém aqui está acusando ninguém de crime nenhum. O ponto é outro, é mais antigo e mais incômodo. Toda vez que se cria uma estrutura cara, complexa e inflada para "garantir conformidade", cria-se junto um exército de funcionários cuja sobrevivência depende da existência permanente do problema que deveriam resolver. Conformidade vira indústria, indústria vira casta, e a casta termina vendendo as ações da empresa que finge proteger.
Há ainda o detalhe que ninguém comenta nas mesas redondas da CNBC. Executivo de farmacêutica vende ação porque sabe que o ciclo de juros altos derruba múltiplo, que a próxima patente expirando é uma sangria garantida, que o Medicare está reprecificando medicamentos com mão pesada, e que a festa monetária dos últimos quinze anos deixou ressaca generalizada nos balanços do setor inteiro. Ela não precisa ter informação privilegiada criminosa, basta ter aritmética. E aritmética, ao contrário de discurso de ESG, não mente.
Fica a lição para quem quer enxergar. Quando a fiscal do prédio aparece carregando malas no saguão, não interessa o que ela diga sobre férias planejadas. Olhe para os pés dela, olhe para a porta, e tire suas conclusões antes que o elevador caia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.