A notícia chega embrulhada naquele papel de presente que o mercado financeiro adora usar quando quer empurrar informação relevante sem alarmar ninguém. Uma diretora de pessoas, a executiva de RH, vende US$ 312 mil em ações da própria companhia. Pronto, é só uma linha no formulário regulatório, daqueles que ninguém lê, e a vida segue. Só que a vida não segue, ou pelo menos não deveria seguir, sem que alguém faça a pergunta que o jornalismo econômico aposentou há tempos, qual seja, por que agora.
O insider, isto é, aquele que está dentro, dispõe de algo que o investidor de varejo jamais terá, que é o cheiro do escritório. Ele sabe se o trimestre vai ser bom antes do release, sabe se o produto novo emperrou, sabe se o cliente grande ameaçou sair, sabe se o jurídico está preocupado com alguma coisa que ainda não chegou no fato relevante. Quando esse sujeito, ou no caso essa executiva, decide trocar papel por dinheiro vivo, o gesto carrega uma informação que nenhum analista de Wall Street consegue reproduzir em planilha. E o gesto, aqui, foi de venda.
Defensores da prática dirão que faz parte, que existem planos pré-programados, que a executiva precisa diversificar patrimônio, que filho entra na faculdade, que a casa nova precisa de reforma, e por aí vai a litania das justificativas. Tudo possível, tudo plausível, e tudo absolutamente irrelevante diante do fato bruto. O capital sai de um lugar e vai para outro, e o lugar de onde sai é justamente aquele que a empresa, em seus comunicados oficiais, descreve como cheio de futuro promissor. Há um pequeno descompasso aritmético entre o otimismo do release e o pessimismo do extrato bancário, e esse descompasso é a única coisa que interessa ao leitor atento.
O problema mais profundo, contudo, não está na venda em si, mas no arranjo que torna esse tipo de operação rotineira. A remuneração executiva moderna foi sequestrada pela lógica do stock option, isto é, paga-se o sujeito em papel da própria empresa supostamente para alinhar interesses, mas o que se alinha de fato é o incentivo para inflar resultado de curto prazo, embelezar o balanço, manipular expectativa e despejar o papel no colo do otário antes que a maré vire. O acionista minoritário, esse personagem mítico em cuja proteção se erguem milhares de páginas de regulação inútil, fica com a conta quando a maré finalmente vira.
E é aqui que mora a piada cruel do capitalismo de relações que se vende como capitalismo de mercado. O sistema regulatório, com toda sua parafernália de formulários, declarações, comitês de auditoria e oficiais de compliance, não impede nada do que deveria impedir; serve apenas para dar verniz de legitimidade ao que, num mercado verdadeiramente livre e transparente, seria escrutinado pelo próprio investidor com olho clínico. Trocou-se o juízo individual pela burocracia coletiva, e o resultado é que o investidor desaprendeu a perguntar, porque agora existe alguém em Washington fingindo perguntar por ele.
Fica, então, a lição que nenhum noticiário vai sublinhar. Quando o executivo vende, preste atenção. Quando muitos executivos vendem, preste mais atenção ainda. E quando a imprensa especializada noticia a venda como se fosse previsão do tempo, desconfie do clima. O dinheiro de verdade fala uma linguagem muito mais honesta que qualquer comunicado de assessoria, basta querer ouvir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.