Karen Wilson, diretora de recursos humanos da General Mills, vendeu US$ 682.367 em ações da companhia e ninguém no noticiário corporativo pareceu achar isso digno de uma sobrancelha levantada. A operação foi registrada com aquela polidez burocrática habitual, formulário 4 da SEC, divulgação obrigatória, tudo dentro da lei. E é justamente aí que mora a primeira lição: quando o roubo é legal, ele vira "transação de rotina". Quando o aperto de cinto é obrigatório para o consumidor que compra cereal mais caro a cada trimestre, ninguém chama de transação, chama de inflação. Curioso que os dois fenômenos andem sempre juntos.
Vamos seguir o dinheiro, porque é nele que toda história econômica revela sua verdadeira gramática. A General Mills vende caixas de Cheerios, Häagen-Dazs, Nature Valley, produtos que dependem do bolso apertado da classe média americana e, por extensão, da brasileira. Nos últimos cinco anos, o preço médio desses itens nas prateleiras subiu bem acima do salário real dos trabalhadores que os consomem. A margem que sustenta o bônus em ações dos executivos não vem do céu, vem da diferença entre o que custa produzir um pacote de aveia e o que se cobra por ele depois que o banco central inundou o sistema com liquidez. Insider vende no topo. Coincidência? Pergunte ao cereal.
O ponto invisível dessa história é o que ninguém na CNBC quer iluminar. Para cada dólar que a executiva embolsou, existe um aposentado que viu seu fundo de pensão diluído, um pequeno acionista que comprou na alta achando que estava entrando num bom negócio, um consumidor que pagou trinta por cento mais caro pelo mesmo produto comparado a 2020. A venda de ações por insiders é o termômetro mais honesto que o mercado possui, e ele está marcando febre alta justamente em empresas de consumo defensivo. Quando quem está dentro da casa começa a tirar os móveis pela janela, talvez seja hora de o vizinho parar de elogiar a fachada.
Há ainda a questão moral, que o capitalismo de compadrio adora fingir que não existe. A diretora de RH é exatamente a pessoa responsável por explicar aos funcionários da base por que o reajuste salarial deste ano ficou abaixo da inflação, por que o plano de saúde mudou de operadora, por que o programa de participação nos lucros foi reformulado para diminuir o pagamento. Enquanto isso, ela executa stock options em valor equivalente a doze anos de salário de um operador de máquina da fábrica de Minneapolis. Não se trata de inveja barata, trata-se de coerência. Quem prega austeridade para os outros e fartura para si mesmo construiu uma carreira sobre uma mentira bem vestida.
O sistema funciona assim, e funciona faz tempo. Cria-se uma engenharia de remuneração que premia executivos com papéis cujo valor depende da inflação dos ativos, inflação essa fabricada por uma autoridade monetária que jura de pés juntos estar combatendo a inflação dos preços ao consumidor. É um jogo de três cartas no qual o crupiê é o Federal Reserve, o cassino é Wall Street e o otário é o trabalhador comum que ainda acredita que poupar dinheiro num CDB é construir patrimônio. As tabelas estão viciadas, as cartas são marcadas, e o pior é que nem precisam esconder mais. A operação está no site da SEC, basta saber ler.
Então, da próxima vez que alguém disser que o mercado é uma democracia financeira onde todos têm a mesma chance, lembre-se desta venda de US$ 682.367. Lembre-se de que quem fez a operação tinha acesso a relatórios internos, projeções de demanda, planos de corte de custos, conversas de diretoria sobre o próximo trimestre. E você, do outro lado, tinha o resumo da Investing.com publicado horas depois do fato consumado. O mercado é livre, sim, mas a liberdade dele é como a do galinheiro: muito ampla para a raposa, bastante restrita para a galinha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.