Dez mil e cento e dezessete dólares. Esse é o tamanho do "evento" que mereceu nota em portal de finanças: a diretora de recursos humanos da Itron passou para frente um pacotinho de ações da própria empresa. Em um mundo onde fundos movimentam bilhões antes do cafezinho da manhã, alguém decidiu que essa migalha era notícia. E talvez seja, mas não pelo motivo que o título sugere. O verdadeiro escândalo não está no que a executiva vendeu, está no que ela recebeu em troca: papel-moeda emitido por um banco central que imprime como quem respira, dólares cada vez mais magros, dólares que daqui a cinco anos vão comprar metade do que compram hoje se a farra continuar no ritmo atual.

Olha, há uma psicologia muito reveladora nessas notas de "executiva vendeu ações". A imprensa financeira treinou o leitor a achar que insider selling é sempre suspeito, como se o sujeito que trabalha na empresa soubesse de algum desastre iminente. Quer dizer, talvez saiba, talvez não. Mas dez mil dólares líquidos não compram um susto, compram no máximo uma reforma de banheiro em cidade média americana. Quem vende esse valor não está fugindo do navio, está provavelmente pagando uma conta, ajudando um filho na faculdade, ou simplesmente diversificando o patrimônio para não depender do humor de um único papel. Transformar isso em manchete é tratar o leitor como criança que precisa de soneca às três da tarde.

Me diz uma coisa, por que ninguém investiga as vendas que importam? As que acontecem nas mesas de operação dos grandes bancos, sincronizadas com decisões regulatórias que vão sair semana que vem, alinhadas com reuniões a portas fechadas em Washington onde se decide quem ganha contrato bilionário e quem fica de fora. Lá sim mora o conluio, lá sim mora o uso de informação privilegiada que ninguém ousa chamar pelo nome porque os envolvidos são justamente quem deveria fiscalizar. A diretora de RH vendendo dez mil dólares é a distração perfeita, o teatro de transparência que serve para a plateia achar que o sistema funciona enquanto o verdadeiro espetáculo acontece nos bastidores.

Há ainda uma camada mais profunda nessa pequena nota, e ela tem a ver com o dinheiro em si. Quando o trabalhador vende um ativo real, uma fração de uma empresa que fabrica medidores inteligentes e roda pelo mundo todo, ele troca produção por papel. Esse papel só vale alguma coisa enquanto a confiança coletiva no emissor se sustenta. E a confiança no emissor americano vem sendo corroída há décadas, desde que decidiram que ouro era relíquia bárbara e que a palavra do tesouro bastava. Cada nova rodada de afrouxamento monetário, cada novo trilhão jogado no sistema para "salvar a economia" é mais um arranhão na fachada. A executiva pode ter vendido dez mil dólares hoje, mas o que ela realmente recebeu foi um cheque pré-datado contra a credibilidade futura do dólar.

E aqui chega a parte que o jornalismo financeiro recusa enxergar: existe uma diferença abissal entre criar valor e capturar valor. A Itron, ao menos no nome, está no lado dos que criam, fabricando equipamentos que medem consumo de água, energia, gás. Coisas tangíveis, coisas que funcionam, coisas que melhoram a vida concreta de gente concreta. Quem captura valor sem criar nada é exatamente o Estado que regula essa empresa, que tributa cada venda dela, que decide via banco central quanto valerá o dólar no ano que vem, e que ainda tem a coragem de cobrar imposto sobre ganho de capital quando a executiva vende uma ação que ela ganhou como parte do salário. Pilhagem com nome elegante continua sendo pilhagem.

A próxima vez que aparecer uma notinha dessas, lembre-se de virar a lente. Não pergunte por que ela vendeu, pergunte por que dez mil dólares viraram notícia. A resposta diz mais sobre o estado do dinheiro do que qualquer relatório do banco central jamais admitirá em público. Dinheiro que precisa de manchete para parecer importante é dinheiro que perdeu a importância no caminho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.