Sangeeta Chakraborty, diretora financeira da Upstart, vendeu US$ 28.236 em ações da própria companhia. O número parece pequeno diante dos bilhões que circulam em Wall Street, mas o sinal é dos mais ruidosos que um mercado atento sabe ler. Quando quem cuida do caixa, quem vê a planilha antes de todo mundo, quem assina o release de resultados decide trocar papel por dinheiro, há sempre uma camada de informação que o investidor de varejo não tem acesso. E quem acha que isso é coincidência provavelmente também acredita que político promete reforma fiscal para cumprir.
A Upstart, vale lembrar, é aquela fintech que iria revolucionar o crédito com inteligência artificial, prever calote melhor que banco tradicional, democratizar o empréstimo. Tudo lindo no PowerPoint, tudo prometido em sucessivas chamadas de earnings, tudo embalado em narrativa de disrupção que encantou os fundos de venture capital durante os anos de juro zero. Acontece que juro zero acabou, a festa do dinheiro fácil virou ressaca, e modelos de risco construídos em planilha do Excel da Califórnia tendem a se comportar diferente quando o ciclo de crédito vira. A diretora financeira sabe disso melhor do que ninguém.
Há um princípio antigo que o investidor esperto guarda no bolso: insider compra por uma razão, vende por mil. Pode ser diversificação, pode ser imposto, pode ser divórcio, pode ser uma casa nova em Palo Alto. Tudo bem. O problema é que o sujeito médio que comprou ação de Upstart na máxima, embalado pela narrativa da disrupção tecnológica e pelas reportagens edulcoradas da imprensa financeira, esse sujeito não tem o luxo da informação privilegiada. Ele segura o papel, vê a cotação descer, e ainda lê analista vendendo a tese de que tudo vai melhorar no próximo trimestre.
O capitalismo de compadrio moderno não usa mais malas de dinheiro em estacionamento de hotel. Usa stock options, vesting, planos de remuneração executiva calibrados de tal forma que o diretor enche a carteira no boom e sai pela porta dos fundos antes do bust. Quem fica com o prejuízo é o pequeno acionista, o fundo de pensão que comprou na alta, o brasileiro que via internacionalizar a carteira via BDR pensando que estava acessando a vanguarda da tecnologia americana. A vanguarda, descobriu tarde, era da liquidação interna.
O que se vê é uma venda corriqueira de ações, US$ 28 mil, miudeza em termos absolutos. O que não se vê é o padrão que se repete em fintechs de crédito desde que o ciclo virou, é o desencontro estrutural entre o discurso público das empresas e o comportamento privado de quem as comanda, é a regulação americana que permite essas operações desde que devidamente comunicadas, como se comunicar fosse o mesmo que justificar. O mercado financeiro adora rituais que mascaram conflito de interesse com aparência de transparência.
Fica a lição, gratuita, para quem quiser aprender. Quando a diretora financeira vende, preste atenção. Quando ela vende e a empresa continua a empurrar narrativa otimista, preste mais atenção ainda. O dinheiro fala mais alto que qualquer comunicado oficial, e os dólares dela já estão fora do papel. Os seus, leitor, ainda estão lá, esperando que o próximo trimestre traga aquela virada que nunca chega.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.