Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, apareceu esta semana para anunciar solenemente que os preços de energia não devem recuar com rapidez, que a infraestrutura global está danificada, que os atrasos na oferta são estruturais, e que o crescimento econômico de 2026 será revisado para baixo. Tudo dito com o tom grave e técnico de quem está revelando algo que o resto do mundo ainda não havia percebido. O problema é que qualquer pessoa que paga conta de luz, abastece o carro ou compra qualquer produto que percorra mais de cem quilômetros antes de chegar à prateleira já sabia disso. A novidade não é o diagnóstico. A novidade é que a instituição que mais contribuiu para criar as condições desta crise se apresente como a intérprete autorizada dela.
Existe um padrão histórico tão repetido que já deveria ter nome próprio: a mesma arquitetura institucional que, por décadas, incentivou governos a se endividarem além do razoável, aprovou pacotes de estímulo que diluíram o valor de cada moeda existente no bolso de cada trabalhador, e recomendou taxas de juro artificialmente baixas que deformaram toda a estrutura de investimento global, incluindo o setor de energia, aparece agora para explicar por que os preços estão altos e o crescimento está minguando. É como ouvir o arquiteto do prédio mal construído explicar, com autoridade, por que o teto afundou. A competência do diagnóstico tardio não apaga a responsabilidade pelo projeto original.
Me diz uma coisa: quando os países produtores de energia desinvestiram em infraestrutura de extração, refino e distribuição nos últimos quinze anos, o fizeram num vácuo? Foram decisões tomadas num mercado livre, sem pressão regulatória, sem metas climáticas impostas por organismos multilaterais, sem custo de capital artificialmente distorcido por uma década de dinheiro barato? A resposta é não. O apagão de oferta que hoje produz preços persistentemente elevados é filho direto de uma política energética global construída sobre dois pilares: a transição acelerada para fontes renováveis sem infraestrutura de suporte, e o desincentivo sistemático ao investimento em combustíveis fósseis via regulação, pressão de fundos ESG e financiamento condicionado. Quem coordenou boa parte desse projeto? As mesmas instituições que agora chegam com a cara lavada para anunciar que a energia vai continuar cara.
Olha, o que Georgieva chama de "danos à infraestrutura" e "atrasos na oferta" são eufemismos elegantes para algo mais simples: o mundo desinvestiu em produção de energia real durante anos a fio, apostou numa transição que ainda não tem tecnologia madura o suficiente para sustentar a demanda global, e agora enfrenta o resultado aritmético disso. Não é mistério. Não precisa de modelos econométricos de quatorze variáveis. Quando você reduz a oferta de qualquer coisa e mantém ou aumenta a demanda, o preço sobe. Isso não é fenômeno novo, não é consequência da guerra, não é resultado de "incerteza geopolítica". É causa e efeito, tão velha quanto a troca entre dois pastores numa feira da Antiguidade. O sofisticado aparato analítico do FMI serve, entre outras coisas, para tornar essa equação simples suficientemente complicada a ponto de ninguém perguntar quem tomou as decisões que nos trouxeram até aqui.
A revisão para baixo do crescimento global em 2026 é a conta chegando. Anos de expansão de crédito artificial, estímulos fiscais financiados por emissão de dívida, taxas de juro mantidas artificialmente no chão para sustentar governos insolventes e mercados viciados, tudo isso produz exatamente o tipo de distorção que agora se manifesta como "ambiente econômico desafiador". A bolha não some, ela migra. O que foi inflado no mercado financeiro desinfla e pressiona o mercado real. O que foi subsidiado artificialmente encarece quando o subsídio acaba. O que foi adiado com crédito fácil se torna impagável quando o crédito normaliza. Isso não é teoria, é a história econômica dos últimos cem anos contada com nomes diferentes a cada ciclo.
E assim chegamos ao ponto que a diretora-gerente do FMI, com toda a sua sofisticação, não vai explicar na entrevista coletiva: a saída que será recomendada para enfrentar o crescimento baixo e a energia cara vai envolver, inevitavelmente, mais coordenação multilateral, mais transferência de recursos via mecanismos que nenhum contribuinte votou, mais pressão sobre países endividados para adotarem reformas fiscais que consolidam o poder de quem as prescreve, e mais uma rodada do mesmo ciclo. Quem paga são as populações nacionais, que veem seu padrão de vida corroído por uma inflação que o FMI prefere chamar de "pressões de custo persistentes". Quem se beneficia são as redes de governança global que crescem em tamanho, orçamento e influência exatamente na proporção das crises que deveriam prevenir. Que a conta vai doer, Georgieva já avisou. Quem cobrou a conta, ela não vai dizer.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.