A notícia chega embrulhada naquele papel de presente que o jornalismo financeiro adora usar: uma executiva sênior da Okta, empresa de cibersegurança queridinha do Vale do Silício, vendeu três milhões e trezentos e cinquenta mil dólares em ações da própria companhia. Ponto. Fim. Próxima manchete. Como se fosse o mesmo que dizer que choveu em Seattle ou que o trânsito de São Paulo está ruim. A diretora jurídica, ou seja, a pessoa que por dever de ofício conhece cada vírgula de cada contrato, cada processo em curso, cada risco regulatório engatilhado, cada esqueleto guardado no armário corporativo, resolveu transformar papel em dinheiro vivo. E o leitor que aplicou as economias na mesma ação via corretora barata fica sabendo depois, pela coluna de variedades do mercado.
Olha, existe uma assimetria de informação aqui que faz qualquer cassino parecer um templo de transparência. Quando a chefe do jurídico vende, ela não está apostando na sorte; ela está executando uma decisão informada por um arsenal de dados que nenhum investidor pessoa física verá nem em sonho. As regras da SEC obrigam o aviso, claro, e a empresa solta o tal Form 4 com a pose de quem cumpre a liturgia. Só que a liturgia esconde o essencial: a informação verdadeira é assimétrica, e a assimetria é estrutural, e a estrutura beneficia sempre o mesmo lado da mesa.
Quer dizer, fala-se muito em mercado de capitais como sendo o sistema mais democrático já inventado, onde o office boy e o bilionário compram a mesma ação pelo mesmo preço. Bonito no folheto. Na vida real, o office boy compra quando a manchete grita comprar e vende quando a manchete grita vender, sempre depois que os iniciados já fizeram o movimento contrário. Não é trapaça no sentido jurídico estrito, é arquitetura. A engenharia do mercado moderno garante que a notícia chegue ao público quando ela já não vale mais nada para quem a recebe. Três milhões e meio de dólares saindo do bolso de uma executiva para o bolso de quem? De quem comprou. E quem comprou, na média, é alguém que confiou na narrativa de longo prazo enquanto a pessoa que conhece a narrativa por dentro tratou de monetizar o curto prazo.
O ponto incômodo, aquele que ninguém na CNBC vai puxar, é que esse padrão se repete com regularidade de relógio suíço em praticamente todas as empresas de tecnologia que cavalgaram a onda dos últimos anos. Executivos remunerados em ações, ações infladas por recompras financiadas com dívida barata da era do dinheiro de graça, dívida barata fabricada por banco central que imprimia liquidez como se papel-moeda crescesse em árvore, e ao final da cadeia o insider transformando o brinquedo de monopólio em dólar de verdade enquanto o pequeno investidor entra achando que está participando da revolução digital. A revolução digital, no fim das contas, foi um esquema sofisticadíssimo de transferência de riqueza de quem trabalha para quem assina contrato com cláusula de stock options.
Me diz uma coisa: se a venda fosse mesmo um não-evento, por que existe lei obrigando a comunicação? Existe porque alguém, em algum momento da história, percebeu que o insider sabe mais e age primeiro, e que o mercado livre só funciona quando a informação flui em mão dupla. Mas a comunicação tardia, no formato burocrático, lida pela quinta página dos portais especializados, virou o equivalente moderno daquela placa de advertência escrita em letra miúda que ninguém lê. Cumpre-se a lei e fura-se o espírito da lei no mesmo gesto. É o capitalismo de compadrio na sua versão acionária: tudo legal, tudo registrado, tudo documentado, e o resultado prático é o mesmo de sempre, com o pequeno pagando a conta do banquete do grande.
O remédio não está em mais regulação, antes que algum entusiasta da CVM apareça com pacote de medidas. O remédio está em reconhecer que o jogo é o que é, parar de fingir que a bolsa é um templo da meritocracia financeira, e tratar cada anúncio de venda interna pelo que ele realmente é: o sinal de fumaça de quem sabe das coisas dizendo, em código, que talvez seja hora de pensar duas vezes. Quando a advogada-chefe põe três milhões e meio na conta corrente, ela não está fazendo declaração de fé na própria empresa. Está fazendo o oposto, e o oposto é eloquente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.