A Disney vai demitir até mil funcionários. Não é rumor, não é vazamento de blog corporativo: é o próprio roteiro que a empresa passou anos recusando a escrever, agora imposto pela realidade com a brutalidade que o mercado reserva para quem o ignora por tempo demais. O novo CEO Josh D'Amaro herda um estúdio que passou a última década confundindo ativismo cultural com estratégia de negócios, e agora precisa explicar para os acionistas por que o castelo mágico está com as luzes apagadas.

Quer dizer, alguém precisava fazer as contas. A Disney gastou bilhões construindo o Disney+ enquanto o serviço sangrava assinantes e acumulava prejuízos que fariam qualquer contador pedir demissão antes de ser demitido. O estúdio que criou personagens que atravessaram gerações decidiu que o problema dos filmes não era a qualidade das histórias, mas a composição demográfica dos elencos, a quantidade de mensagens progressistas por metro quadrado de tela e a necessidade urgente de ressignificar tudo que já havia funcionado. Refilmagens com protagonistas trocados, sequências desnecessárias de clássicos que ninguém pediu, personagens históricos redesenhados com a sensibilidade de um comitê de RH. O resultado foi bilheteria medíocre, crítica dividida e um público que simplesmente parou de comparecer.

Olha, existe uma lição que o mercado ensina com a paciência de professor primário antes de finalmente perder a paciência: você pode ignorar seus clientes por um tempo, mas não para sempre. A Disney construiu sua fortuna contando histórias que tocavam algo universal no ser humano, histórias sobre coragem, amor, redenção, sacrifício, o bem contra o mal. Esse repertório não é conservador nem progressista, é humano, no sentido mais antigo e mais robusto da palavra. Quando a empresa trocou esse patrimônio por cartilhas ideológicas embrulhadas em animação de última geração, perdeu o fio condutor que fazia pais levarem filhos ao cinema, depois comprarem o brinquedo, depois visitarem o parque. A cadeia de valor inteira dependia da magia. Quando a magia virou propaganda, a cadeia quebrou.

Me diz uma coisa: quem exatamente se beneficiou de tudo isso? Os funcionários que estão sendo demitidos agora, certamente não. Os acionistas que assistiram à ação oscilar enquanto concorrentes menores e mais ágeis comiam fatias do mercado, também não. O consumidor que pagou ingresso para assistir a um produto medíocre que tentava ensiná-lo a pensar de determinada forma, definitivamente não. Esse é o padrão clássico da empresa capturada por agenda interna: a missão original, que era servir o cliente e gerar valor, é substituída pela missão derivada de servir uma visão de mundo, e o cliente vai embora sem fazer cerimônia. Não escreve carta de reclamação, não faz protesto, simplesmente para de comprar. É a forma mais democrática e mais implacável de voto existente.

D'Amaro chega prometendo cortes, eficiência, foco. São as palavras certas. A questão é se a empresa tem disposição de entender por que a conta ficou tão alta antes de simplesmente cortar os que estão na base da pirâmide, enquanto as decisões que geraram o problema continuam intocadas nos andares superiores. Porque demissão em massa sem mudança de direção estratégica é só uma forma mais cara de procrastinação: resolve o fluxo de caixa do trimestre e adia o problema real para o próximo CEO explicar. Impérios não caem por um único erro. Caem pela acumulação de decisões que priorizam o que soa bem em reunião interna em vez do que funciona lá fora, onde as pessoas gastam seu próprio dinheiro com aquilo que, de fato, escolhem.

Mil demissões. Cada uma delas é uma família que vai receber a notícia nesta semana. Isso é real, e é pesado. Mas a responsabilidade por isso não está na planilha do novo CEO, está nas escolhas dos anos anteriores, nas salas de reunião onde alguém decidiu que a Disney sabia melhor do que o público o que o público deveria querer. O mercado não tem paciência com tutores. Quem esquece que existe para servir o cliente, aprende no balanço trimestral.

Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.